BÁRBARA SÁ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A misoginia online mudou de linguagem. Em mais de 90% das imagens classificadas como misóginas por pesquisadores da UFBA (Universidade Federal da Bahia), não havia conteúdo sexual explícito. Em vez de pornografia, o discurso de ódio contra mulheres circula por memes, montagens e piadas, mostra levantamento que analisou 47.018 imagens.
Nas imagens, mulheres são chamadas de “muié”, “fêmea”, “vadia”, “vagabunda” e “prostituta”. Também aparecem termos característicos da machosfera, como “msol”, usado para mães solteiras, “honradinha”, “beta”, “ginocentrismo” e “ginofascismo”.
O conteúdo ridiculariza mulheres, ataca o feminismo, questiona leis como a Maria da Penha, defende que elas não ocupem espaços de poder e, em alguns casos, chega a incentivar a violência física.
Ao todo, os pesquisadores identificaram conteúdo misógino em 2.896 imagens, o equivalente a 6,2% do material analisado. A misoginia foi a categoria de risco mais frequente do levantamento, superando violência (3%), nudez (2,1%) e conteúdo sexual explícito (1,2%).
Entre as imagens classificadas como misóginas, 65,2% foram consideradas de intensidade alta ou extrema.
“O que mobiliza esses grupos não é a nudez nem a pornografia. Existe uma relação de profundo desprezo pelo feminino e pela própria mulher. Se você observar alguns desses memes, eles são muito cruéis. Até a sexualidade da mulher é tratada de forma negativa”, afirma o cientista social computacional Leonardo Nascimento, coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA.
Segundo ele, o humor é usado como estratégia para ampliar o alcance desse conteúdo. “Eles procuram mascarar a violência como brincadeira. É uma estratégia extremamente recorrente em grupos radicalizados.”
O levantamento analisou imagens que circularam em 1.417 grupos e canais do Telegram, reunidos em um universo de aproximadamente 3,9 milhões de mensagens publicadas entre novembro de 2020 e maio de 2026.
Nascimento aponta que esses espaços funcionam tanto como porta de entrada para jovens na cultura masculinista quanto como ambiente de comercialização de conteúdos voltados a esse público.
“Tem muitos influenciadores utilizando esses grupos para vender coisas. Eles servem tanto para aproximar homens jovens dessa cultura masculinista quanto para vender conteúdo pago. Ao mesmo tempo, novos grupos surgem o tempo todo, enquanto outros continuam ampliando a circulação desse tipo de conteúdo”, afirma.
Embora o Telegram concentre a circulação desse material, o estudo mostra que ele funciona como um centro de distribuição para outras plataformas.
Dos links compartilhados pelos usuários, 44% direcionavam para o YouTube, 18% para outros grupos e canais do próprio Telegram, 16% para o Instagram e 14% para o X.
Conforme a pesquisa, o YouTube concentra principalmente vídeos de influenciadores da machosfera, entrevistas e conteúdos antifeministas, enquanto o Instagram é usado para disseminar reels de curta duração, ampliando o alcance dessas narrativas.
O laboratório também identificou mudanças no perfil das imagens compartilhadas.
Além do aumento de conteúdos produzidos por inteligência artificial, pesquisadores encontraram capturas de tela de mulheres reais, muitas vezes divulgadas sem o conhecimento delas por ex-companheiros, conhecidos ou outras pessoas para que fossem ridicularizadas nesses grupos.
“Muitas vezes essas mulheres nem sabem que suas imagens estão circulando nesses locais. Ex-namorados, conhecidos ou outras pessoas capturam essas imagens e as enviam para os grupos para que elas sejam ridicularizadas. Esse é um tipo de conteúdo que tem preocupado bastante”, diz.
O estudo também identificou um crescimento recente da circulação desse material. Quase metade dos posts de imagem foi publicada em 2025 e outros 23,5% no primeiro semestre de 2026, fazendo com que 70,5% de todo o conteúdo analisado se concentrasse nos últimos dois anos.
Embora o levantamento aponte essa aceleração, Nascimento afirma que ainda não é possível relacioná-la diretamente ao processo eleitoral. “O que pesquisas anteriores mostram é que, à medida que as eleições se aproximam, aumenta o compartilhamento de mensagens radicalizadas, de ódio e de violência.”
Para a jurista Alice Bianchini, presidente da ABMCJ (Associação Brasileira de Mulheres de Carreiras Jurídicas) e integrante do Consórcio Lei Maria da Penha, a violência contra as mulheres migrou para formas mais sofisticadas e passou a circular por memes, montagens, ironias e códigos compartilhados entre grupos misóginos, dificultando tanto a identificação pelas plataformas quanto a responsabilização de quem produz esse conteúdo.
Ela afirma que o uso do humor não afasta a responsabilidade de quem publica essas mensagens.
“Quando uma publicação desumaniza mulheres, reforça estereótipos discriminatórios ou estimula hostilidade e violência contra elas, deixa de ser uma simples piada e passa a integrar um discurso de ódio.”
Para a Bianchini, a exposição contínua de crianças, adolescentes e jovens a esse tipo de conteúdo contribui para normalizar a violência de gênero. “Toda violência contra as mulheres começa pela negação de sua humanidade. A misoginia é justamente o discurso que torna essa negação socialmente aceitável.”