“Quero jogar domingo”. A frase pura e simples parece óbvia para um jogador que acaba de ocupar uma cadeira no novo clube. Foi exatamente a ela que recorreu o atacante Robinho em seu retorno ao Santos, ontem, em entrevista coletiva. Rebaixado à moeda de troca do Milan, o ex-menino da Vila viu na antiga casa o encosto ideal para tenar recuperar o brio.
A 70 quilômetros dali, o meia Valdívia tentava, na Academia de Futebol do Palmeiras, encontrar palavras para explicar a razão de um sumiço misterioso, após fracasso nas negociações com o Al Fujairah, dos Emirados Árabes.
Ainda que sem querer, os dois experientes jogadores, em situações bem distintas na carreira, exemplificaram duas facetas do futebol brasileiro atual: os que precisam mostrar serviço logo e os descansados, que tornam uma opção entrar ou não em campo.
Exemplos de um Robinho faminto em contraste com um Valdívia adepto ao chinelinho não faltam no cenário nacional. No Fluminense, o meia Conca é referência no quesito comprometimento. Ele não desfalca o time em Campeonatos Brasileiros há 64 jogos – enquanto jogador do tricolor, disputou todas as partidas desde o Nacional de 2010. Em 2009, esteve fora em apenas duas ocasiões. Não à toa é ídolo da torcida.
No vizinho de cidade, o Flamengo, o torcedor tem se irritado exatamente com o lado oposto. Elano, que rescindiu contrato ontem com o clube, além de Felipe André Santos, são vocabulário fácil do dicionário do “chinelinho”. O último, inclusive, postou fotos pescando e curtindo um churrasco enquanto curte “férias”. Ele, porém, ainda não definiu a rescisão de contrato com o time da Gávea.
Pra que lado vão?
Com Robinho e Valdívia tendo um ano de contrato pela frente com seus respectivos clubes, resta saber com qual imagem eles vão querer dar o adeus definitivo. A tirar pelas entrevistas coletivas de ontem, um retornou com o pé direito. Já o outro… terá de se explicar muito até voltar aos gramados.
Com o Corinthians na mira
Apresentado oficialmente como reforço do Santos, o atacante Robinho esbanjou satisfação ao iniciar a sua terceira passagem pelo clube. Ele espera entrar em campo neste domingo, quando o time recebe o Corinthians, na Vila Belmiro.
“Depende do Oswaldo (de Oliveira, técnico do Santos). Tenho que treinar e me dedicar fisicamente para ficar melhor, mas se o Oswaldo precisar de mim, tranquilo”, disse Robinho, que volta ao Santos com um currículo invejável diante do Corinthians: sete vitórias e um empate, incluindo a consagração na decisão do Brasileiro de 2002.
Além de convencer Oswaldo de Oliveira a escalá-lo, Robinho precisa ter o seu contrato de empréstimo de um ano regularizado, para que o seu nome seja incluído no Boletim Informativo Diário (BID).
Questionado se preferia marcar o seu primeiro gol diante do Corinthians ou do São Paulo, como aconteceu na sua segunda passagem pelo time, Robinho lembrou o seu bom retrospecto diante do adversário de domingo. “Pergunta difícil, quero ajudar o Santos a ganhar todos os jogos. Dei mais sorte contra o Corinthians”, disse.
Valdívia volta com cara de poucos amigos
Teria sido melhor se na coletiva convocada pelo próprio Valdívia, o meia aparecesse com um saco de pão na cabeça. Sem saber onde esconder a cara de vergonha depois da negociação fracassada, o chileno tratou de fazer o que o jogador de futebol faz quando a situação está ruim para o seu lado dentro de um clube: juras de amor.
“É uma instituição (Palmeiras) que me deu tudo. A motivação é a mesma de querer jogar. O Palmeiras vive um momento complicado, mas tenho certeza que sairemos dessa”, disse Valdívia.
Depois da negociação frustrada com o Al Fujairah dos Emirados Árabes, o meia retornou ao Alviverde, onde treina e promete cumprir todo seu contrato. Ele, porém, deixa uma ressalva no discurso de amor eterno. “Se o Palmeiras não quisesse vender, teria rejeitado a proposta árabe. Agora quando senta para conversar e agrada ao clube, você tem uma brecha para negociar”, afirmou o chileno que ainda revelou ter deixado de lado 10% da negociação para ajudar o clube.
parece o mesmo
Se o discurso da coletiva foi teve apelo emocional, na hora de falar sobre futebol, a coisa parece que não mudou. Mesmo ídolo, a própria torcida sabe que Valdívia não é muito de entrar em campo, e já deixou claro que só volta quando estiver pronto. “Já conversei francamente com o treinador. O planejamento foi montado. Se jogar domingo, atrapalho mais do que ajudo. Vamos trabalhar duro e fazer o possível para voltar logo.”
Vítima de seus próprios erros
Valdívia admitiu que paga pelos erros do passado e que, por isso, tudo que acontece com ele ganha uma repercussão maior. Entretanto, ele garante que mudou. “Claro que tenho culpa (pela repercussão maior), mas se for para viver sentindo culpa, é melhor ficar em casa, dormindo. É tipo quando o cara é alcoólatra: quando ele quer se recuperar, tem direito a buscar uma vida melhor. Venho há tempos passando essa mensagem, que eu mudei e não sou a mesma pessoa que era antes”, disse Valdivia.
O jogador acredita que é perseguido por parte da imprensa e torcida. “Meu nome é sempre o primeiro que aparece. Toda vez que acontece alguma coisa, meu nome é sempre o primeiro culpado. Falaram que eu traí o Al Fujairah, porque recebi proposta melhor de outro clube, disseram que briguei com o Medel na seleção do Chile, entre outras coisas. E nada disso é verdade”, reclamou.
“Não posso ser julgado pelo que fiz no passado. Já paguei. Fui punido, criticado, mas tenho o direito de querer melhorar”, completou. Sem proposta de outros clubes, seu contrato vai até agosto de 2015.