Depois de um dia de expediente, David voltava para a sua casa em Santa Maria. Uma rotina diária que fazia do vendedor de calçados de uma loja no Conic mais um desconhecido nas ruas de seu bairro.
A prática, no entanto, deixou de ser algo comum. Como um verdadeiro “popstar”, o jogador do Santa Maria – que disputa a 1ª divisão local – garante que passou a ser reconhecido nas últimas semanas. “Agora sou o cara, lá na minha rua. Todo mundo vem pedir ingresso para os jogos. Quando chego, todos estão apoiando. É bom demais”, conta.
David, Júnior, Maurício e Alan não são apenas jogadores do Santa Maria, e sim moradores da cidade, desde a infância. Lá, eles iniciaram as primeiras investidas no futebol, pelos campos de terra nos campeonatos amadores. O caminho até chegar ao futebol profissional, porém, foi longo.
Dos quatro, apenas Alan já fazia parte do time profissional que conseguiu o acesso à elite no ano passado. Os outros ingressaram na equipe depois de aprovados em uma “peneira” sob o comando do técnico Sérgio Passarinho.
Apoio nos jogos
Com duas vitórias e uma derrota em três jogos disputados, os garotos têm levado um bom público aos estádios.
“Minha família, todos os meus amigos e ‘toda a cidade’ pede ingressos para nós. Quando chega ao meio da semana, já estão todos perguntando onde vai ser o jogo, procurando por ingressos”, comenta o volante Júnior.
De fato, a torcida se movimenta para acompanhar os jogos da Águia. A equipe tem a segunda maior média de público (em partidas como mandante e visitante), com aproximadamente 1.357 espectadores por confronto. Números que empolgam o meia Alan. “Nunca tinha representado a minha cidade até o ano passado. É muito gratificante passar na rua e ouvir o pessoal dizendo que vai assistir à próxima partida”, disse.
Corneta de plantão
Nem sempre é bom morar na cidade e representá-la esportivamente, já que fica mais fácil ouvir queixas após resultados negativos.
“Você passa na rua e alguém e diz: ‘Poxa, Junior, era para você pegar a bola, driblar dois e fazer o gol! no meu tempo eu não perdia’”, brinca Alan.
Mudança de campo
O Santa Maria faz a sua preparação para o torneio local em dois espaços. O primeiro é um pequeno estádio no Novo Gama. O restante dos treinamentos é agrupado em um clube localizado no Condomínio Santos Dumont, na mesma cidade – espaço que possui estrutura maior, com piscina, campo de futebol e academia.
“O pessoal daqui do condomínio não é muito fã de futebol, mas está começando a comparecer nos jogos. Esse é um motivo a mais que nos impulsiona a chegar na final e não decepcionar o pessoal que acredita na gente”, afirma Alan.
Sonho realizado
Antes de disputar partidas no futebol profissional, Júnior, David e Maurício atuavam no campeonato amador da cidade.
O trio realiza um desejo antigo, o de trocar o barro pela grama dos campos.
“Era um sonho meu participar do profissional. Agora estamos aqui e vamos partir para ser campeão”, comenta o otimista Júnior.
Sonho dividido com David, que sonha em permanecer como jogador profissional após o campeonato. “Agora que o professor deu a oportunidade, quero manter”, deseja.
Números
– 4 atletas de Santa Maria atuam no clube
– 1.357 pessoas é a média de públicoda Águia
– 4 anos tinha Alan quando chegou à Santa Maria
– 2 vitórias tem o clube no Candangão 2014
Entrosamento vem do “Terrão”
David, Alan e Maurício apresentam um bom entrosamento no torneio local. Não é para menos. Os três fazem parte do mesmo time de futebol amador da cidade e garantem: quando entram no campo de terra batida, não tem para ninguém.
Quem sofre é o mais novo da turma, Júnior, que atua em uma equipe diferente dos demais. “O time deles sempre foi o time dos feras. O meu era mais fraquinho. Sempre apanhávamos bastante. Eles chegavam matando”, brinca.
Maurício tratou de se defender das acusações de time violento e também aproveitou para tirar um sarro com a cara do amigo. “Quando ele diz que a gente caía matando não era de porrada não, era de cinco, seis, sete bolas na rede. Era só goleada”, cutuca Maurício.
Já que se não pode ir contra, o melhor é se unir. No fim da conversa entre o quarteto e o Jornal de Brasília, surgiu o convite para que o volante Júnior agregasse valor ao grande campeão do amador.
“Agora não dá mais para jogar contra, estamos entrosados e é melhor jogarmos juntos. Já falei para o Juninho vir com a gente, que é melhor para ele”, pede Alan. “Vamos contratá-lo. Arrumar coisa melhor para ele lá em Santa Maria porquea coisa está ruim para ele”, alfineta David.
Dia de jogo
O Santa Maria entra em campo para enfrentar o Capital, às 10h30, no estádio Serejão, em Taguatinga. Os ingressos custam R$ 20 inteira e R$ 10 meia-entrada a cadeira, e R$ 10 inteira e R$ 5 a meia-entrada nas arquibancadas.
Curiosidades
Fora do futebol…
Antes de jogar no Santa Maria, Júnior era vendedor de calçados, assim como o volante David. Já o meia Maurício trabalhava em uma banca de produtos naturais na Feira dos Importados.
Alan, que atuava pelo Santa Maria no ano passado, quando o clube conquistou o título da Segundona, atem outra profissão. Após o período de treinamentos, Alan atua como vigilante noturno.