Os comandados do técnico Roy Hodgson são compatriotas de Henry Wickham, o célebre ladrão de sementes de seringueira. No entanto, é o treinador italiano Cesare Prandelli quem detém um espécime nativo do Brasil dentro de seu elenco para o confronto com a Inglaterra neste sábado, em Manaus.
O volante Thiago Motta, nascido em São Bernardo do Campo, se profissionalizou pelo Juventus-SP e, ainda adolescente, chegou ao poderoso Barcelona. Convocado por Prandelli pela primeira vez em 2011, ele construiu praticamente toda a carreira no exterior e hoje integra o elenco da seleção europeia na Copa.
O paulista chamado para participar da luta pelo pentacampeonato mundial da Itália não é o único brasileiro que disputará o torneio por outro país na condição de naturalizado. Eduardo e Sammir (Croácia), Diego Costa (Espanha) e Pepe (Portugal) completam o grupo.
Biógrafo do explorador britânico Henry Wickham, responsável por sabotar o chamado Ciclo da Borracha, o norte-americano Joe Jackson vê pontos positivos no que chama de “diplomacia do futebol”, e lembra que o mesmo ocorre com outros países em diferentes modalidades, a exemplo dos Estados Unidos no basquete.
“Entendo que isso pode ser irritante para os torcedores, mas ao mesmo tempo vocês deveriam estar orgulhosos, porque o Brasil é referência no futebol. Os croatas que não têm familiaridade com os brasileiros veem um deles jogando e pensam: ‘Eu gostaria de ser igual’. No final das contas, isso não pode ser ruim, mesmo se um time croata vencer um brasileiro”, defendeu.
Nascido em Sergipe, Diego Costa aceitou o chamado para disputar dois amistosos pelo Brasil em março do ano passado, contra Itália e Rússia. Em seguida, no entanto o atleta, dono de dupla nacionalidade, recusou nova convocação de Luiz Felipe Scolari e priorizou a Espanha, causando constrangimento.
Rejeitado pelo goleador do Atlético de Madrid, o Brasil toma providências para evitar a perda de novos talentos. O ex-volante Alexandre Gallo, coordenador das categorias de base da Seleção, esteve na Europa no último mês de fevereiro para visitar sementes que começam a germinar em terras estrangeiras.
Desde que assumiu seu cargo na CBF, Gallo mapeou jogadores brasileiros que atuam fora do país com idade para servir alguma Seleção de base. Apenas no continente europeu, foram levantados mais de 30 atletas em times de ponta nascidos a partir de 1993 – com idade para participar dos Jogos Olímpicos-2016.
Durante pouco menos de suas semanas de viagem, em busca de jogadores com potencial para defender as Seleções sub-23, sub-20 e sub-17, Gallo entrou em contato com jovens compatriotas que atuam por clubes de Inglaterra, Holanda, Alemanha, Portugal e Espanha.
Único país a reunir cinco títulos mundiais no currículo, o Brasil, notório fornecedor de sementes para outras seleções, ainda persegue o primeiro ouro olímpico de sua história. O time nacional, medalha de prata nos Jogos de Londres-2012, quer evitar a debandada de talentos para quebrar o tabu no Rio de Janeiro-2016.
Além de trabalhar no cultivo de jovens talentos, Alexandre Gallo atua como observador do técnico Luiz Felipe Scolari durante o Mundial, função que já havia exercido na Copa das Confederações. Ele divide o posto com o ex-zagueiro Roque Júnior, campeão sob o comando do treinador gaúcho em 2002.