Thiago Henrique de Morais
Especial para o Jornal de Brasília
Na última quarta, uma das equipes mais zombadas da Argentina silenciou os torcedores rivais. Tido como o único grande sem Libertadores, o San Lorenzo conquistou a Copa pela primeira vez, fazendo a sua apaixonada torcida, oriunda de um bairro carnavalesco e sofrido, soltar o sonhado grito de campeão.
A angústia se deve não somente à falta de títulos da Libertadores, mas, principalmente, por ser um dos clubes mais prejudicados pela ditadura militar argentina. Em 1979, o San Lorenzo foi obrigado a ceder à prefeitura de Buenos Aires o terreno do Viejo Gasómetro. A justificativa era dar melhorias na paisagem urbana. Mas o que aconteceu, de fato, foi a venda para uma multinacional de supermercados instalada no local.
Em dívidas, dois anos depois, o time caiu para a segunda divisão – o primeiro grande na história a se rebaixado. As dores da torcida cuerva só foram amenizadas nos últimos anos. Após inúmeras passeatas com mais de 200 mil torcedores, uma lei de 2012 devolveu o direito do San Lorenzo de ter o terreno. Tudo dependia, porém, do aval da rede de supermercados. Foram mais dois anos de tratativas para o sonhado retorno ao bairro de origem.
O acordo aconteceu em abril (no mês dos 105 anos de história) após novas manifestações dos torcedores na região do antigo estádio. Hoje, há projetos para um novo estádio e com possibilidade, inclusive, da ajuda do seu torcedor-símbolo: o Papa Francisco.
Mesmo com a bravura que representou a construção do Nuevo Gasómetro, em 1993, o Ciclón virou uma sombra das glórias do passado. Além disso, viu aumentarem as gozações dos rivais em torno da sua incapacidade de conquistar uma Libertadores. A sigla CASLA (Club Atlético San Lorenzo de Almagro) virou, para os adversários, o Club Argentino Sin Libertadores da América. Brincadeira essa que terminou no memorável dia 13 de agosto, com o gol de Néstor Ortigoza, de pênalti.
Trajetória quase tem uma queda
Até 2014, o San Lorenzo sequer havia chegado a uma final de Libertadores. Um dos cinco grandes do país havia tido como seu êxito máximo as semifinais das longínquas edições de 1960 (a primeira edição da competição), 1973 e 1988 (ambas eliminadas por clubes argentinos, pra River Plate e Newell’s).
Enquanto isso, seus rivais Boca Juniors (6), River Plate (2), Independiente (7) e Racing (1) conquistaram o troféu ao menos uma vez. Para piorar, times com menor torcida como Estudiantes LP (4), Vélez Sarsfield (1) e Argentinos Juniors (1), esses dois últimos clubes de bairro, já haviam conquistado.
Era tradicional destes times, nos confrontos contra o San Lorenzo, a menção de sua conquista, inclusive com bandeiras do Japão, onde era disputado o título Mundial.
Há dois anos, o clube, por pouco, não foi rebaixado para a Primeira B Nacional. Salvou-se graças a uma vitória na extinta repescagem (conhecida como Promoción) sobre o Instituto por 2 x 0 e um empate por 1 x 1. No ano seguinte, o clube conseguiu o título do Torneio Inicial, em 2013, o que lhe rendeu a vaga na Libertadores. (T.H.M.)