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Futebol

Brasileirão: não há ponto de equilíbrio

Arquivo Geral

10/08/2014 10h54

Pagar R$ 50 em uma partida do Campeonato Brasileiro é um valor salgado para muitos torcedores. O Corinthians, porém, tem cobrado preços até mais altos – R$ 400 em áreas VIPs. Mesmo assim, o clube consegue manter média de 29.165 pessoas por partida no Itaquerão, o que lança um enigma sobre o futebol nacional: há ou não um preço ideal para os bilhetes?

O Fluminense, por exemplo, raramente cobra acima de R$ 20. O clube oferece ainda gratuidade às crianças e aos idosos e meia entrada ao sócio torcedor e a jovens abaixo dos 21 anos. Isso, no entanto, pouco atraía os tricolores antes da briga pela liderança – nas últimas rodadas o time deu um salto para a terceira posição do ranking de média de público, com 23.061.

Ao Jornal de Brasília, o vice-presidente de projetos especiais do clube carioca, Pedro Antônio, abalizado pelos números do Flu, crê que a situação do clube no campeonato seja o diferencial. “Se o clube está bem, o torcedor tem um motivo a mais para ir ao estádio”, diz.

Em partes

Os números do Nacional distorcem a versão de Pedro. O líder Cruzeiro, que cobra um dos bilhetes mais caros do País, aparece só em sexto lugar, com 16.417 pessoas por jogo. O São Paulo, líder de público, cobra em média R$ 23,21 e, até o fechamento da edição ocupava posição intermediária na classificação.

São Paulo entra na onda

O fato é que os clubes, atualmente, não perdem a chance de esticar a corda e aumentar o preço do ingresso. Um time aproveita o fator (novo) estádio, outro usa uma partida inédita e até a chegada de um ídolo é motivo para majorar o preço.

O São Paulo, por exemplo, embarcou na onda dos altos valores e depois da chegada do ídolo Kaká encerrou os chamados preços populares. No jogo contra o Criciúma, no Morumbi, o clube paulista alterou o custo de todas as entradas em quase o dobro cobrado.

A arquibancada amarela (setor família) passou de R$ 10 para R$ 20; a laranja foi de R$ 20 para R$ 30. A mesma situação aconteceu nas cadeiras selecionadas e nas áreas VIPs do lugar.

Os efeitos da “moda Copa do Mundo”

Autor de livros sobre futebol e pós-doutorado na Maison des sciences de l’homme (MSH — Paris), Bernardo Borges tentou explicar ao JBr. alguns motivos para o superfaturamento nos valores cobrados pelos clubes.

“O valor dos ingressos vem subindo progressivamente na última década, desde o anúncio da Copa do Mundo no Brasil. Estamos, agora, no pós-Copa com as arenas prontas para um campeonato de escala nacional, não mais internacional”, disse o especialista.

Segundo pesquisa da Pluri Consultoria, a média dos valores dos bilhetes mais acessíveis para partidas de times da Série A no Brasil subiu 15% neste ano se comparado a 2013.

Os números são ainda mais assustadores quando a pesquisa mostra a inflação há doze anos. Os valores subiram 478,1% de dezembro de 2002, quando a medição foi iniciada, a junho de 2014.

 

“Apesar disso, os clubes aproveitam o frescor dos novos estádios para manter o valor dos ingressos. Estão em um processo de remodelamento do perfil social dos torcedores nos estádios, colocando cada vez menos espaço para o ‘povo’ e cada vez mais voltado para um espectador de classe média”, critica Bernardo. Este é justamente o motivo das reivindicações das grandes torcidas dos principais clubes do Brasil.

Líderes de bilheteria cara

A lista dos clubes que lideram o ranking dos ingressos mais caros é grande. O Corinthians, mesmo com a segunda melhor média de público, é o responsável pela maior cobrança: R$ 78,31 em média.

Mesmo com os times em baixa, torcedores de Flamengo, Santos e Palmeiras não fogem à regra: estão mais para o lado dos “careiros” do que para os “bonzinhos”. 

No mês passado, a situação gerou revolta dos torcedores do Internacional. O preço para assistir um jogo gira em torno de R$ 36 a R$ 80. A torcida alegou que o esporte está elitizado demais de acordo com o preço cobrado pela diretoria.

“Devolvam o clube do povo”, era a frase estampada em letras garrafais em uma das faixas. 

Em 28 de julho, outra manifestação semelhante tomou conta do Maracanã no duelo entre Flamengo e Botafogo pelo Campeonato Brasileiro. Os ingressos variaram de R$ 50 a R$ 220.

A arquibancada passou longe da lotação e a revolta foi intensa entre as duas torcidas. “Querem tirar o povo do Maracanã”, dizia uma faixa e outra fazia alusão à música “Cidadão” do cantor Zé Ramalho.

Por que tão caro?

Após a passagem da Copa do Mundo entre junho e julho, os clubes decidiram manter o padrão Fifa dos estádios, sobretudo nos preços das entradas dos jogos.

Poucos times conseguem cobrar caro e lotar as arenas.

Os valores salgados têm gerado revolta nos torcedores que acusam as diretorias de retirar o “povão” das arenas reformadas do País.

O Corinthians segue na liderança dos clubes que mantêm o padrão – as entradas vão de R$ 50 a R$ 400, seguido do Atlético-PR.

O Botafogo tenta atrair a torcida com o preço baixo dos ingressos, mas a fase do time prejudica na hora de encher o estádio.

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