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Futebol

A dança da bola no Campeonato Candango

Arquivo Geral

16/02/2014 9h35

Xikunahity, Rõkrã e Huka Huka são esportes de origem indígena. Atividades que pouco chamaram a atenção de Kaiah, Traiú, Bepkum, Thiago e Bebeto quando crianças. De etnias indígenas diferentes, os quatro, em comum, se encantaram  por um esporte criado longe do Brasil, mas enraizado historicamente na cultura nacional: o futebol.

A paixão pela bola nos pés foi tamanha que os alavancou a um universo, teoricamente, distante: se tornaram atletas profissionais. Em busca de um lugar ao sol no esporte bretão, os quatro fazem parte de um número alto de índios que tem invadido o Campeonato Candango nesta temporada. Bebeto e Bepkum, por exemplo, atuam na Primeira Divisão local: fazem parte do elenco de Ceilandense e Legião, respectivamente.

Fora de casa desde os 15 anos, Bebeto está há quatro investindo na carreira. Filho de pai e mãe indígenas, o atacante jamais morou na tribo de seus pais, porém  mantém laços estreitos com seu povo. “Sempre que estou de férias vou até lá. Gosto de jogar futebol e conversar com meus primos”, afirmou o jogador, que fala perfeitamente a língua dos pais. Bebeto também revelou que é um orgulho para os Kuikuro, sua etnia. “Meu povo é fanático por futebol. Eu sou o único profissional de lá e todos me dão força.”

Curiosidades

Esportes indígenas famosos

1 Só vale com a cabeça: o Xikunahity é uma espécie de futebol, no qual o “chute” só pode ser dado usando a cabeça. Disputada por duas equipes que podem ser compostas por oito a dez jogadores, a partida é realizada em um campo semelhante ao do tradicional futebol. É neste esporte que dá a entender que o jogador irá cabecear o chão.

2 O lacrosse indígena: o jogo é disputado entre duas equipes formadas por 10 ou mais atletas de cada lado, onde todos usam uma espécie de bastão. O objetivo do confronto é rebater uma pequena bola (coco) que, ao ultrapassar a linha de fundo de seu oponente, marca um ponto. 

Pai fã de tetracampeão
O fanatismo do povo Kuikuro pelo futebol foi comprovado de maneira inusitada. Ao ser questionado se Bebeto era o diminutivo de Roberto, o jogador prontamente rebateu: “Não, meu nome é Bebeto mesmo. Meu pai quis homenagear o atacante. Ele adora futebol, me dizia que sempre jogava quando era mais novo”, explicou Kunhucu Bebeto Kuikao, seu nome completo.
De acordo com o centro-avante, passar férias é o máximo de tempo que curte ficar em sua aldeia. “Gosto de ir lá passar férias. Mas sou acostumado com a cidade. Quando vou para lá também não deixo de entrar na internet”, brincou.
Poucas palavras
Diferentemente do falante Bebeto, Bepkum, que tem treinado no Legião, é bastante tímido. Com 19 anos e somente há dois fora de sua tribo, o atacante ainda tem dificuldades para se expressar em português. Isso, porém, não o impede de destacar o amor pelo Timão. “O jogador que gosto é o Guerrero”, comenta o atacante da etnia Kaiapó.
 
“Resenha” já é a de boleiros
Vaidosos e bastante brincalhões, os amigos Thiago e Traiú contam quantas namoradas já tiveram. “O Traiú tem várias primas bonitas e eu já namorei com quase todas”, alfineta Thiago, tirando risadas de seus amigos. 
Aos 18 anos, Traiú Assalu Mehinaco joga como meia e morou até os 11 anos em sua aldeia. “Mudei para a Gaúcha do Norte (Mato Grosso) e comecei a estudar. Ao mesmo tempo aprendi a jogar bola e queria me tornar profissional”, conta o jovem.
De acordo com ele, a habilidade que tem com a bola tem a quem puxar. “Meu pai adora futebol. Dizem que quando ele era mais novo jogava muita bola e muitos da tribo dizem que eu me aparento com ele. No futebol e fisicamente também”, comentou o vascaíno.
 
Força e disciplina são aliadas
Thiago nasceu numa aldeia no Sul do Pará, onde foi criado até os seis anos, quando se mudou para a cidade. Somente nove anos depois, o jovem, com 23 atualmente, foi se interessar pelo futebol. “Eu já jogava bola, mas comecei a disputar jogos pela minha escola e vim para Brasília em 2004. Foi quando passei em um teste no Internacional. Fui para o Beira-Rio, mas não me adaptei e acabei voltando para cá”, descreve.
Entre algumas investidas no interior do futebol paulista, o jogador atualmente permanece em Brasília, local onde retomou os estudos. Neste ano fez um teste no Brazlândia, time da segunda divisão candanga, no qual passou e acertou sua permanência.
Além do meia, a Garça conta também com Traiú e Kaiah, formando o trio de indígenas que tem treinado no clube para disputar a competição, que acontece no fim do Candangão.
 
Prós e contras
Thiago sem dúvida mostra que tem muita experiência fora da aldeia. Para o jogador, uma das características mais marcantes dos indígenas é a força. “Não só no futebol, mas no esporte em geral, o nosso diferencial é nossa força física, velocidade. O resto precisamos pegar com os treinamentos. O índio que sai da aldeia ainda é muito inocente, não tem a malandragem de quem já treina há mais tempo.”
Kaiah Waiwai faz coro ao parceiro de time. O lateral-esquerdo, de 23 anos, crê que o comportamento do povo indígena seja um diferencial. “O nosso povo tem o costume de ser correto e, de repente, não consegue imaginar que certas coisas dentro do campo do futebol podem ajudar, pois parece não ser correto”, afirmou.
A vida dele nos gramados começou aos 14 anos. “Já jogava futebol quando fui para cidade e comecei a  jogar em alguns clubes”, comentou. Kaiah é filho de pai indígena e mãe negra. Além, de morar na aldeia, o jovem passou alguns anos em um Quilombo. “Minha etnia se concentra no Pará, na fronteira com a Guiana Inglesa”, explicou Kaiah, que além do português e o carimbo (língua de sua etnia), também fala o inglês. (M.E.P.)
 
Kaiah mantém laços fortes
Kaiah se mostrou o mais enraizado com suas origens. Atualmente, o lateral-esquerdo mora em uma aldeia nas proximidades da região central do Distrito Federal, onde conheceu sua esposa e hoje é pai de uma menina de três anos.
Muito longe dos milhões que recebem os grandes jogadores de futebol do mundo, o indígena de fala mansa vê o mercado da bola supervalorizado. “Acho desnecessário o Drogba ganhar três milhões por mês, por exemplo. Ele, Cristiano Ronaldo, Neymar ganharem um absurdo de dinheiro. Mas é assim mesmo, o mundo é capitalista. Já que ganham esse tanto, que peguem esse dinheiro e façam algo bom, ajudem aqueles que não têm esse privilégio.”
Perguntado sobre o que faria se ganhasse o mesmo que os grandes astros do futebol, Kaiah não esqueceu de seu povo Waiwai. “Ajudaria minha aldeia com saúde, educação e a manter nossa cultura. Se meu povo tivesse o conhecimento que tenho hoje, na verdade todos os povos, não entregariam sua terra da maneira que acontece”, desabafa o jogador, que confessa ter pego arco e flecha recentemente para defender sua tribo.
Mantendo as raízes
Fora de sua aldeia desde os 11 anos de idade, Kaiah jamais perdeu suas crenças. “Sempre gosto de voltar a minha tribo para caçar, pescar, realizar os rituais. Jogo futebol, mas jamais quero perder a minha cultura”, explicou. “Com o tempo que passamos aqui, muitas vezes vamos esquecendo. Quero que minha filha more durante um tempo na aldeia, aprenda os costumes. Pois, hoje, meu objetivo com o futebol, além de crescer, é poder ajudar o meu povo e se possível depois, mais velho, poder ensina-los a jogar futebol, um pouco mais dessa malandragem que o homem branco tem.” (M.E.P.)
 
Guerrero é inspiração para Bepkum
Fã do centro-avante peruano Guerrero, o também atacante Bepkum faz questão de frisar que seu estilo de jogo não se assemelha ao finalizador alvinegro. Para ele, a forma de jogar de Emerson Sheik é mais parecida com a sua. “Sou mais de usar a minha velocidade.”
Bepkum começou a jogar com 15 anos e o que mais o motiva é um dia poder alcançar seu sonho de atuar no clube do coração. “Penso em um dia chegar a ser jogador do Corinthians”, disse o garoto, rapidamente corrigido pelo amigo também da etnia Kaiapó, Thiago: “Pensa não, vai chegar.”
Sempre maiores
Mais falante que seu amigo, Thiago revelou uma curiosa preferência entre os indígenas. “Cara, o que mais você vai ver é índio flamenguista e corintiano e vascaíno. Se não for nenhum dos três, pode saber, é Palmeiras”, brincou, revelando ser palmeirense. (M.E.P.)
 
Saiba Mais
Os jogadores que atuam no futebol candango fazem parte da seleção brasileira indígena de futebol. Thiago é o capitão.
Em abril ocorrerá uma competição mundial de povos indígenas, em Bogotá, na Colômbia, e eles representarão o Brasil.
 

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