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A rainha do forró

Aos 83 de idade, a nordestina Anastácia segue cantando e encantando pelo Brasil a fora

Por Gustavo Mariani 28/11/2023 10h33

Se não fosse um gato mal educado, talvez, a música popular brasileira teria demorado mais para ter a sua segunda realeza nordestina – a primeira foi Marinês, a “Rainha do Xaxado”. História engraçada!. Integrante – desde os 13 de idade – do coral da fábrica onde trabalhava a sua mãe, a garota Lucinete Ferreira, uma dia, foi ouvida pelo diretor artístico da Rádio Jornal de Comércio, de Recife, que propôs-lhe fazer fazer um teste com ele. Foi, fez, agradou e ficou, de 1954 a 1960, no grupo musical da casa.

À medida em que crescia – em tamanho e na carreira -, Lucinete fazia shows em clubes, circos e cinemas da capital pernambucana e por cidades vizinhas. Ganhou popularidade, também, participando de programas humorísticos e, por conta de “chifradas” levadas dos namorados, passou a compor músicas, espinafrando-os. Certa fez, o diretor de radioteatro pediu-lhe um favor: datilografar 10 laudas do capítulo que seria ensaiado no dia seguinte. Ela levou-as pra casa, copiou oito páginas e cochilou. Quando acordou, um gato havia borrado o seu esforço Que horror! Tentou limpar os papéis, mas, sem tempo para refazer nada, apresentou-os daquele jeito ao diretor, que achou foi graça.

Tremendamente envergonhada pelo incidente, Lucinete decidiu deixar a rádio e ir embora pra São Paulo, tentar dar prosseguimento à carreira artística. Levou carta de apresentação do amigo radionoveleiro, para um diretor da Rádio Record, mas a missiva só valeu-lhe inconsequentes participações em programas da emissora. Dois meses depois, ela encontrou, pelas ruas paulistanas, um velho amigo cantor de Recife, que deu-lhe o cartão de um vendedor de shows, com quem só conseguiu falar dois meses depois. O cara marcou uma audição para ela que, acostumada a repertório variado em clubes, circos e cinemas de Recife, inclusive sucessos de Cely Campello, teve de cantar bolero, samba-canção, chá-chá-chá, tudo o que o avaliador pediu. Ao final, o homem achou-a ótima cantando forró e abriu-lhe a chance de gravar um compacto duplo – quatro músicas – pelo selo Chantecler. Estourou e, logo depois, gravou um LP (disco de vinil, com 12 músicas), das quais metade assinadas por seu futuro marido (Marcos Cavalcanti de Albuquerque), da dupla Venâncio e Corumbá (Manuel José do Espírito Santo).

Por ali, como havia a pernambucana Marinês (Inês Caetano de Oliveira), “Raínha do Xaxado”, o estado nordestino deu mais uma realeza à música brazuca, a “Rainha do Forró”. Só que, ao gravar o LP, em vez de aparecer Lucinete na capa do disco, ela leu Anastácia. Levou um susto e recebeu esta explicação de Venâncio e do produtor (da Chantecler) Palmeira (Diogo Mulera, o chamado Descobridor de Estrelas):

– No Nordeste, toda menina que nasce é Marinete, Nildete. Ivonete, Gracinete, Gildete, por ai. Achamos que você ficaria melhor com este nome, principalmente porque tem um filme aí, sobre uma tal de Anastácia, lotando os cinemas – Anastácia, de 1956, estrelado por Ingrid Bergman, no papel da princesa Anastásia Nikolaevna, filha de Nicolau II, o último czar da Rússia.

Assim, sem ter assistido ao filme dirigido por Anatole Litvake e nem saber de quem se tratava a personagem principal, Lucinete virou Anastácia, fazendo, com a faixa“Uai, uai” (de Venâncio e Corumbá) todo o Nordeste cantar.

Rola o tempo e Anastácia já havia encerrado o seu casamento com Venâncio, há duas viradas de calendário. Foi quando Luiz Gonzaga a convidou para uma turnê pela terra deles. Levou junto, também, o sanfoneiro Dominguinhos e, logo este iniciou um romance com a cantora, relacionamento que durou, de 1968 a 1980. Terminado o giro nordestino, ela gravou, em São Paulo, o único LP produzido por Luís Gonzaga – Canto do Sabiá.

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Embora fosse forrozeira, Anastácia tornou-se compositora versátil e produziu canções de várias vertentes, das quais um samba gravado por Noite Ilustrada e boleros por Waldick Soriano, Edith Veiga, Cláudia Barroso e Ângela Maria. Uma de suas maiores contribuições à música popular brasileira foi incentivar o lado cantor-compositor de Dominguinhos (foto), que resistia àquilo. Com aquela força, ele caiu nas graças da intelectualidade brasileira, via Gilberto Gil, que fez tremendo sucesso, após voltar do exílio na Inglaterra, gravando “Eu só quero um xodó”. Esta, composta por Dominguinhos e Anastácia, além de Gil, já teve mais de 400 gravações no Brasil e no exterior. Anastácia, aos 83 de idade, hoje, ainda não tirou a voz do microfone – que saúde, na cuca e no gogó!






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