Eu estava na cozinha batendo um suco de melancia, com o telefone entalado entre a orelha e o ombro, tentando alcançar a Xuxa, que atende chorando e não consegue terminar uma frase. A mulher está em pedacinhos, daquele jeito bom, do choro que vem de orgulho. Desliguei o liquidificador e deixei o suco esperando na bancada, porque tinha coisa mais importante na linha. A Sasha tinha acabado de fazer um desfile que mexeu com a família inteira, e a Xuxa só conseguia repetir o nome da mãe, a Dona Alda.
Foi na quarta-feira, em São Paulo, que Sasha Meneghel apresentou a nova coleção de inverno da Mondepars, batizada de “Alda”, em homenagem à avó materna, Dona Alda Meneghel, que morreu em 2018. A estilista pegou as lembranças de infância, as histórias que a mãe contou a vida inteira, e transformou tudo em passarela. No encerramento tocou uma gravação da própria Alda cantando, e a Xuxa, que recebeu um look exclusivo criado para ela, viu a mãe homenageada virar moda diante dos olhos do Brasil. Chorou, e me ligou ainda chorando.

E essa emoção toda me jogou de volta numa história que diz tudo sobre quem foi essa mulher. Antes de a Xuxa virar Rainha dos Baixinhos, antes da Globo, antes dos discos, ela era uma adolescente sendo descoberta como modelo depois de ser vista por um funcionário da Editora Bloch. A própria Xuxa contou à Piauí que parte da família reagiu mal, dizendo que “se eu fosse modelo, ia virar prostituta, ou engravidar, ou me drogar”. E a Dona Alda, costureira do interior, sem manual de mãe famosa, respondeu na lata: “Conheço a filha que tenho, e sei que nada disso vai acontecer.”
No primeiro teste, Alda foi com a filha até Copacabana, onde uma Kombi da Bloch esperava para levar a menina a um ensaio na Barra da Tijuca. Quis ir junto e não deixaram. Assinou a autorização com o coração apertado, viu a filha partir sozinha e, quando a Xuxa voltou pra casa, soube que a mãe tinha acendido uma vela pedindo que tudo desse certo. Essa mesma Alda, nascida em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, costureira e artista plástica, foi quem fez os primeiros figurinos da filha. Antes de estilista, marca e equipe enorme, havia uma mãe ajustando barra e cuidando da imagem da menina.

Por isso a homenagem da Sasha pesou tanto. A neta olhou para a avó costureira e devolveu a ela a passarela que sempre mereceu, costurando memória em renda, do véu de noiva da Dona Alda à voz dela cantando no fim do desfile. A Xuxa chorou porque entendeu, e eu, do outro lado da linha, com o suco de melancia já morno na bancada, fiquei só ouvindo. Alda foi mãe, porto seguro, vela acesa e primeira figurinista da maior estrela popular que este país já teve. Muito antes de o Brasil chamar a Xuxa de rainha, ela já chamava a menina de filha.