Michelle Bolsonaro chamou de “sonho realizado” o lançamento da Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, iniciativa apresentada pelo Ministério da Educação do governo Lula. A manifestação da ex-primeira-dama chamou atenção porque veio em meio à crise pública no bolsonarismo, especialmente após o atrito com Flávio Bolsonaro.
Eu ainda estava com a sacola da Magnolia Bakery pendurada no braço, tentando atravessar uma calçada de Nova York sem transformar cupcake em purê de turista, quando vi Michelle elogiando uma ação do governo Lula. Minha filha, parei no meio do fluxo de gente com pressa. Porque quando Michelle Bolsonaro usa “sonho realizado” para falar de uma medida do MEC petista, até a Estátua da Liberdade deve pedir print.

A publicação foi feita nos Stories do Instagram nesta sexta-feira (3). Michelle não citou diretamente Lula, mas parabenizou a comunidade surda pelo lançamento da Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, a PNEBS.
“Parabenizo a nossa amada comunidade surda pelo lançamento da Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos”, escreveu a ex-primeira-dama.
Na sequência, Michelle destacou que a educação bilíngue passou a ser tratada como modalidade separada da Educação Especial, o que, segundo ela, garante mais autonomia e protagonismo à comunidade surda.
“A educação bilíngue se tornou uma modalidade separada da Educação Especial, trazendo mais autonomia e protagonismo para a comunidade surda. É um sonho realizado! Seguimos trabalhando por um Brasil mais acessível e com oportunidades para todos”, declarou.
Olha, ninguém aqui vai fingir que inclusão não é pauta séria. É, e muito. A comunidade surda reivindica há anos políticas públicas específicas, material adequado, profissionais formados e reconhecimento da Libras como língua central nesse processo. Mas também ninguém vai fingir que a cena política não tem veneno: Michelle, em plena crise com o enteado Flávio, elogiando uma política lançada pelo governo Lula, é daquelas imagens que fazem Brasília engasgar com café sem açúcar.
A pasta informou que a política atende a uma reivindicação da comunidade surda e das redes públicas de ensino. A ideia é fortalecer ações voltadas aos direitos educacionais e linguísticos desses estudantes, dentro da legislação vigente.
O ministério também aponta que cerca de 51% das escolas contam com Salas de Recursos Multifuncionais, mas ainda há deficiência na oferta de apoio bilíngue especializado. Outro gargalo é a formação profissional: apenas 2.501 professores têm formação continuada em educação bilíngue de surdos.
Michelle tem uma relação antiga com a pauta da comunidade surda. Durante o governo Bolsonaro, ela adotou Libras como uma de suas principais bandeiras públicas e chegou a usar discursos oficiais para reforçar a inclusão de pessoas surdas. Por isso, o elogio à política em si não cai do céu. O que chama atenção é o momento e o autor institucional da medida.
Porque a política foi lançada pelo MEC do governo Lula, e Michelle está justamente em uma semana de turbulência dentro do próprio campo. Ela deixou a presidência do PL Mulher, alegando que vai se dedicar aos cuidados de Jair Bolsonaro e da filha Laura, e viu a crise com Flávio virar assunto nacional depois de acusar o enteado de humilhação e desrespeito.

Então, sim: a pauta é inclusão, mas o bastidor é dinamite. Michelle não escreveu “obrigada, Lula”, claro. Mas celebrou como “sonho realizado” uma iniciativa federal do governo que o bolsonarismo trata como inimigo principal. Em política, meu amor, às vezes o silêncio sobre o nome diz quase tanto quanto o elogio à obra.
E eu, em Nova York, tentando comprar lembrancinha e sobreviver ao calor, só penso numa coisa: se até Michelle Bolsonaro consegue reconhecer avanço quando a pauta é a comunidade surda, talvez Brasília esteja mesmo entrando naquele tipo de semana em que ninguém lê o roteiro antes de entrar em cena.