A morte do autor de “Pantanal” reabriu o dossiê mais suculento do mercado de dramaturgia brasileira: um contrato rasgado, um processo de vinte anos e uma indenização que quase chegou aos R$ 23 milhões. Fiquei sabendo de tudo antes de desfazer a mala.
Cheguei de NY morta, gente. Aquela Copa me consumiu a alma, o fígado e o cartão de crédito, e eu juro que se alguém mencionar pênalti perto de mim essa semana eu processo a pessoa por dano moral. Larguei a mala na entrada de casa, aqui no Cosme Velho, liguei a cafeteira torcendo pra ela cooperar depois de 05 dias de abandono, e o celular já vibrava. Era meu contato do mundo do entretenimento jurídico, aquele que só me liga quando o assunto envolve dinheiro grosso e ego ferido. E olha, ele escolheu bem o dia, porque eu precisava de uma treta que não tivesse bandeira nenhuma envolvida.

A notícia era a morte de Benedito Ruy Barbosa, e junto com a saudade de “Pantanal” veio o capítulo mais delicioso da carreira dele, que não foi escrito pra televisão, foi escrito pelo Judiciário. Nos anos 1990, Silvio Santos decidiu montar o elenco dos sonhos pra brigar de igual com a Globo na dramaturgia e contratou grandes nomes da televisão, como Benedito Ruy Barbosa, Gloria Perez e Walter Negrão. Foi um IPO de talentos, todo mundo assinando contrato de olho no prêmio, só que a Globo apareceu com uma contraproposta e o elenco desistiu antes da estreia. Silvio não era homem de engolir cancelamento de contrato calado, então fez o que qualquer investidor magoado faria: processou todo mundo.
A parte boa é que essa treta tem camadas de holding. Anos depois, o SBT reexibiu “Pantanal”, em 2008, entendendo que havia adquirido os direitos da antiga TV Manchete, emissora responsável pela exibição original da novela em 1990. Benedito, porém, sustentava que os direitos pertenciam à Globo, e não ao SBT. É tipo descobrir que o apartamento que você comprou na planta já tinha outro dono registrado. Um imbróglio de propriedade intelectual digno de M&A mal auditado.
E o climão não ficou só no papel. Em 1998, com o processo em andamento, Benedito Ruy Barbosa foi ao SBT receber o Troféu Imprensa por “O Rei do Gado”. No palco, Silvio Santos aproveitou para lembrar da desistência do autor em assinar com a emissora. Há relatos de que Benedito se emocionou durante o programa e que parte daquele momento nunca chegou a ser exibida. Isso não é climão, minha filha. Isso é assembleia de acionista com faca nas costas embaixo da mesa.

Agora, o desfecho financeiro, que é onde eu realmente me deliciei. O SBT acabou condenado por litigância de má-fé, porque a Justiça entendeu que a emissora utilizou recursos considerados protelatórios ao longo do processo. A decisão determinou o depósito de mais de R$ 10 milhões. A defesa de Benedito, no entanto, sustentava que, com juros e correções, o valor devido ultrapassava R$ 23 milhões. Foi um daqueles impasses de auditoria em que cada lado apresenta uma planilha diferente para o mesmo balanço. No fim, o STJ bateu o martelo e decidiu que o valor já depositado encerrava a disputa, colocando um ponto final em uma batalha judicial que atravessou cerca de duas décadas.
Fecho esse capítulo pensando que Benedito Ruy Barbosa deixou um legado que nem processo consegue arranhar. Ele criou rio, terra e drama em “Pantanal”, escreveu novelas que marcaram gerações e protagonizou também um dos litígios mais emblemáticos da história da dramaturgia brasileira. Se existisse um índice de bolsa para brigas de bastidor, essa aqui teria fechado em alta histórica.