O termo “Neysexual” viralizou durante a Copa do Mundo de 2026 após torcedores aparecerem com camisas estampadas com a frase “Sou Neysexual”, usada como brincadeira para indicar uma admiração quase incondicional por Neymar. A expressão foi definida nas redes como “sentir atração apenas pelo Neymar” e virou assunto para especialistas em comportamento e sexualidade.
Eu estava no Cosme Velho tentando dobrar uma pilha de roupas com a disciplina de quem prometeu virar adulta até o fim da tarde, quando li “Neysexual” e perdi completamente o fio da tarefa. Fiquei parada com uma camiseta na mão, olhando para o nada, porque o Brasil pode até ter caído na Copa, mas descobriu uma nova orientação afetivo-futebolística no caminho. E, sinceramente, depois de tudo que Neymar já causou, era só questão de tempo até virar categoria própria.

Segundo Rodrigo Torres, psicólogo e sexólogo ouvido pela Veja, a fixação pelo jogador tem relação com a idealização do sucesso financeiro, do acesso, da fama, da relação com mulheres e da imagem construída por Neymar ao longo da carreira. Para ele, o fenômeno está mais ligado à idolatria do que necessariamente à atração sexual.
“Essa fixação pelo Neymar tem muito a ver com a idealização do sucesso financeiro, com as mulheres, do acesso que ele tem a tudo”, explicou o especialista. Ele também destacou que, embora Neymar já não esteja no auge esportivo, soube transformar a própria imagem em um sucesso de marketing.
A neurocientista e analista emocional Telma Abrahão também apontou que o cérebro humano tende a criar sensação de familiaridade com figuras muito presentes social e midiaticamente. Neymar reúne atributos como sucesso, status, reconhecimento e visibilidade, o que faz muita gente projetar nele desejos, aspirações e até pedaços da própria identidade.
Eu acho esse ponto delicioso, porque o “Neysexual” parece piada de arquibancada, mas carrega uma tese inteira sobre masculinidade brasileira. O homem hétero não consegue simplesmente dizer “acho esse cara bonito”, “admiro”, “me fascina” ou “queria ser ele”. Precisa botar meme, camisa, ironia e um “calma, é brincadeira” na legenda, como se elogiar outro homem sem manual de segurança fosse derrubar o sistema.
O psicólogo e sexólogo Fabricio Oliveira explicou justamente isso. Segundo ele, comentários masculinos sobre corpo e beleza de outros homens geralmente aparecem embalados em humor ou em frases como “não sou gay, mas”. Para o especialista, esse recurso permite expressar admiração ou desejo sem assumir nada, protegendo a imagem heterossexual de quem fala.
“Reforça a ideia de que só se pode elogiar outro homem na brincadeira, nunca é sério. E mostra a insegurança coletiva em relação a esse tema, mais do que revela algo sobre o fã em si”, afirmou Fabricio.
Telma Abrahão também alerta que, quando tudo vira meme, existe o risco de transformar formas legítimas de admiração em caricatura. Ou seja, o “Neysexual” diverte, mas também mostra como ainda é difícil para muitos homens demonstrarem encantamento, afeto ou fascínio por outro homem sem precisar esconder tudo atrás de piada.

No fim, ser Neysexual talvez não signifique exatamente desejar Neymar. Pode significar querer o dinheiro, o drible, o cabelo, a fama, as mulheres, o iate, o marketing, a vida de comercial de chuteira e a sensação de que todo mundo ainda fala de você mesmo quando o futebol já não responde como antes.
Eu terminei de dobrar a camiseta rindo sozinha, porque o diagnóstico é simples: se você defende Neymar em qualquer mesa, perdoa toda eliminação, acha que ele “ainda vai calar muita gente”, salva foto dele de óculos escuros e usa “não sou gay, mas” antes de elogiar o homem, talvez seja hora de aceitar. Você pode não estar apaixonado. Mas o exame deu Neysexual reagente.