A estátua de Milena, personagem da Turma da Mônica, foi alvo de vandalismo em Perus, na zona noroeste de São Paulo, e teve a cabeça arrancada. A escultura de bronze já foi retirada do local e passará por restauração antes de ser recolocada, segundo informou a Prefeitura de São Paulo ao Estadão.
Eu estava naquela etapa do almoço em que ninguém mais sabe se pediu café pela vontade de tomar ou pela desculpa de continuar sentada falando mal do mundo, quando a notícia da Milena apareceu no celular. Uma amiga largou a colher no pires, outra disse “mas nem a Turma da Mônica tem paz?”, e eu senti aquele cansaço profundo de quem percebe que o Brasil consegue transformar até estátua infantil em boletim de ocorrência. Minha filha, arrancar a cabeça da Milena não é travessura, é falta de vergonha com requinte de covardia.

A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa informou que encaminhou o caso ao Instituto Mauricio de Sousa, responsável pela obra. A peça foi recolhida pela equipe técnica e será restaurada. A previsão é que a escultura volte ao mesmo ponto depois da manutenção, porque vandalismo não pode ter a palavra final nem em praça, nem em memória, nem em personagem de gibi.
E aqui tem uma camada que não dá para tratar como “ah, só quebraram uma estátua”. Milena não é uma personagem qualquer. Ela é a primeira protagonista negra da Turma da Mônica, criada para ocupar um espaço simbólico importante dentro de um universo que atravessa gerações no Brasil. Quando uma figura dessas aparece em bronze, no espaço público, não é só decoração. É presença. É criança preta passando e se vendo. É família apontando e dizendo: “olha, ela está ali”.
Segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, os danos foram identificados durante patrulhamento na manhã do último domingo (5). A ocorrência foi registrada como dano ao patrimônio no 33º Distrito Policial, e o patrulhamento na região será reforçado. Até agora, o responsável pelo vandalismo não foi identificado.
Eu fico tentando imaginar a cabeça de quem faz uma coisa dessas e só encontro eco. Porque tem uma diferença enorme entre depredação aleatória e ataque a símbolo. Pode até ser que alguém tente reduzir a “vandalismo comum”, essa palavra guarda-chuva que serve para esconder preguiça de pensar. Mas quando a estátua atacada é de uma personagem negra, infantil, pública e afetiva, a conversa precisa ser mais cuidadosa.
Na mesa, uma das meninas lembrou que a Turma da Mônica sempre foi esse lugar de infância meio sagrado, onde a gente aprende a rir de dentuça, de baixinho, de coelho azul, de plano infalível que dá errado. Só que Milena chegou para atualizar esse mundo. Ela trouxe representatividade para dentro de um imaginário que muita criança consome antes mesmo de saber escrever o próprio nome. Por isso dói ver justamente ela aparecer decapitada.

A Prefeitura de São Paulo diz que a peça volta depois do reparo, e eu espero que volte mesmo. Mas que volte também com câmera, iluminação, cuidado e uma mensagem muito clara: espaço público não é terra de ninguém. Estátua não fala, mas representa. E, às vezes, representa mais do que muita gente aguenta ver de pé.
A Milena vai ganhar cabeça nova. Quem vandalizou, infelizmente, talvez siga sem uma. E eu digo isso sem metáfora elegante, porque tem dia em que a realidade não merece couture verbal. Merece bronca mesmo.