Juliano Tchula, um dos maiores parceiros de composição de Marília Mendonça, quebrou anos de silêncio para se manifestar sobre a cinebiografia da cantora. Em vídeo publicado nas redes nesta sexta-feira (3), ele afirmou que não quer ter sua imagem usada no filme e disse que já havia pedido aos advogados para notificarem a produção sobre a decisão.
Eu estava no quarto do hotel em Nova York, fechando a VPN depois da minha sessão clandestina de novela brasileira, quando chegou o vídeo de Juliano Tchula falando da cinebiografia de Marília. Larguei o controle remoto em cima da cama na hora. Porque quando um homem que ficou anos longe da internet aparece para dizer “não quero aparecer”, minha filha, não é nota pequena: é bastidor sensível, com violão, luto e advogado na mesma mesa.

O filme sobre Marília Mendonça será produzido pelo Prime Video e tem previsão de lançamento para 2027. Marina Versos será responsável por interpretar a cantora. O elenco também reúne Hermila Guedes, Klara Castanho, Marcelo Serrado e Sophia Valverde. As gravações começam em julho.
João Guilherme seria o responsável por interpretar Juliano Tchula na obra. Mas o compositor deixou claro que não autorizou o uso de sua imagem. “Há dois anos, eu já tinha pedido para os meus advogados notificarem uma possível criação de um filme que eu não queria participar. E eles insistiram, continuaram com isso até hoje. Trouxeram isso aí à tona agora de novo”, afirmou.
A manifestação veio um dia depois de Flavi Soares, mulher de Tchula, dizer que os advogados da família já estavam em contato com a produção. Ela escreveu que o marido não autorizou o uso da imagem no filme e que a equipe jurídica acompanha o caso há meses.
Depois, Flavi publicou o vídeo do compositor e explicou que ele não tem redes sociais. “Vocês conseguiram a proeza de fazer alguém que odeia internet e nem no passado gravava vídeo falar!! São 7 anos longe da internet, 7 anos de conversão!”, disse.
No vídeo, Tchula explicou que não quer discutir o roteiro, nem como será retratado. A questão, segundo ele, é mais simples: ele não quer aparecer. “Eu não me importo com o roteiro do filme. Eu não me importo como vou me retratar. Eu só quero viver o presente aqui com Jesus. O meu passado, eu não vivo mais no passado, eu estou vivendo aqui com a minha família”, declarou.
A fala pesa porque Tchula não é uma figura lateral na história de Marília. Ao lado dela, compôs centenas de músicas e ajudou a construir parte essencial do repertório que transformou a cantora em fenômeno nacional.
Entre as canções assinadas pela parceria estão sucessos como “Amante Não Tem Lar”, “De Quem É a Culpa” e “A Flor e o Beija-Flor”. Ou seja, não estamos falando de alguém que passou pela história de Marília de relance. Estamos falando de um compositor que ajudou a escrever a trilha emocional de milhões de brasileiros.
Tchula também saiu em defesa da esposa, que vinha sendo atacada nas redes após falar sobre a falta de autorização: “Atacaram a minha esposa nas redes sociais, é por isso que eu estou aqui. Não é ela que fala por mim, ela me representa e eu que pedi para ela falar”.
Ele ainda negou que esteja interessado em dinheiro ou em disputa financeira envolvendo o filme. “Eu não recebo mais direitos autorais. Eu não estou querendo dinheiro desse filme, eu tenho um direito meu de não aparecer no filme. Eu não quero que use minha imagem”, afirmou.
Olha, eu entendo a comoção em torno de Marília. A morte dela, em 2021, aos 26 anos, abriu uma ferida gigantesca na música brasileira. A cantora não era só uma artista popular: era uma virada de chave no sertanejo, uma voz feminina que mudou a lógica do gênero, deu nome às dores de muita gente e levou o feminejo para o centro do país.
Mas justamente por isso, qualquer obra sobre ela pisa em terreno delicado. Cinebiografia não é só homenagem bonita com trilha emocionante. É também memória de pessoas vivas, relações que ficaram, dores que não foram públicas e personagens que talvez não queiram reviver o passado em tela grande.

E eu acho que aqui mora o ponto central. Marília virou patrimônio afetivo do Brasil, mas as pessoas ao redor dela continuam sendo pessoas, com direito a silêncio, conversão, afastamento e escolha. Nem todo mundo quer virar personagem. Nem todo mundo quer ser interpretado por ator famoso. Nem todo mundo quer que a própria vida seja reaberta em nome da emoção do público.
O filme ainda nem começou a ser gravado e já tem seu primeiro conflito grande de bastidor. E, conhecendo o peso de Marília Mendonça no coração do país, essa discussão está longe de acabar.