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Kátia Flávia
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“Odeio história de bicha”: Fala homofóbica de Benedito Ruy Barbosa volta a assombrar legado do autor

Declaração feita pelo autor durante o lançamento de Velho Chico, em 2016, gerou revolta, pedidos de boicote à novela e voltou à tona após sua morte, expondo um dos capítulos mais controversos de sua trajetória.

Kátia Flávia

07/07/2026 11h41

Benedito Ruy Barbosa foi criticado por fala homofóbica durante lançamento de Velho Chico em 2016

Benedito Ruy Barbosa foi criticado por fala homofóbica durante lançamento de Velho Chico em 2016

A morte de Benedito Ruy Barbosa também fez voltar à tona uma das declarações mais controversas da carreira do autor. Em 2016, durante a divulgação de Velho Chico, novela das nove da Globo, ele foi criticado por falas homofóbicas ao reclamar da presença de personagens LGBTQIA+ em tramas televisivas.

A máquina de lavar já tinha apitado pela segunda vez, eu estava tentando decidir se a roupa de viagem merecia perdão ou incineração, quando esse recorte apareceu no celular. Parei com uma camiseta na mão, porque Benedito é gigante na dramaturgia, mas gigante também deixa sombra. E essa sombra, minha filha, não dá para varrer para baixo do tapete só porque Pantanal tem pôr do sol bonito.

 Declaração do autor gerou pedidos de boicote à novela das nove da Globo
Declaração do autor gerou pedidos de boicote à novela das nove da Globo

A fala aconteceu na coletiva de lançamento de Velho Chico, em março de 2016. Questionado sobre o que o público queria assistir, Benedito disparou a frase que virou incêndio: “Odeio história de bicha”. Na sequência, tentou justificar dizendo que esse tipo de tema poderia existir e ser aceito, mas não deveria, segundo ele, virar “aula” para crianças.

O autor ainda afirmou ter orgulho de netos que seriam “macho pra cacete”, frase que só piorou a repercussão. A declaração foi recebida como homofóbica por internautas, ativistas e figuras públicas. O nome de Benedito foi parar entre os assuntos mais comentados do Twitter, com gente pedindo boicote a Velho Chico antes mesmo de a novela engrenar de vez.

Eu sei que tem gente que gosta de passar pano em nome da obra. “Ah, mas ele escreveu Pantanal”, “ah, mas ele fez O Rei do Gado”, “ah, mas é de outra geração”. Meu amor, geração explica contexto, não absolve grosseria. Talento não vem com cláusula de imunidade moral, e novela boa não transforma preconceito em opinião inofensiva.

Na época, Jean Wyllys classificou as declarações como deselegantes, reacionárias e homofóbicas. O diretor Luiz Fernando Carvalho, responsável por Velho Chico, também reagiu e chamou a fala de “momento infeliz”. Aguinaldo Silva, outro autor de novelas, entrou na conversa pelas redes sociais, e o assunto virou um problemão de imagem para a Globo.

A emissora, segundo registros da época, chegou a cogitar um comunicado dizendo que as declarações de Benedito não refletiam a política da empresa, mas acabou não se manifestando oficialmente. Depois, teria combinado com o autor e a família que ele não daria novas entrevistas, justamente para evitar que temas polêmicos atrapalhassem a divulgação da novela.

Olha a saia justa: a Globo tentando vender Velho Chico como novelão nobre, visual, poético, ribeirinho, e o autor entregando, no tapete de lançamento, uma frase que parecia saída de um almoço de família dos anos 1970 em que ninguém teve coragem de levantar da mesa. É o tipo de bastidor que departamento de comunicação deve ouvir e procurar uma janela aberta para respirar.

Benedito tentou se defender dizendo que não se considerava preconceituoso e que tinha responsabilidade com milhões de telespectadores. Também reclamou de autores que, na visão dele, idealizariam personagens gays. Mas a tentativa de explicação não apagou o teor da frase original, nem a percepção de que ele tratava a presença LGBTQIA+ na televisão como ameaça pedagógica, quase como se afeto em novela fosse perigoso quando não cabe no modelo tradicional.

 Luiz Fernando Carvalho, diretor de Velho Chico, classificou a fala como um “momento infeliz”
Luiz Fernando Carvalho, diretor de Velho Chico, classificou a fala como um “momento infeliz”

E aí está a contradição que eu não consigo engolir calada: Benedito sabia como poucos escrever famílias partidas, paixões proibidas, gente julgada pela terra, pelo sangue, pela origem. Mas, quando o assunto era diversidade sexual, escorregou feio numa visão estreita, antiga e cruel. Um autor que entendia tanto de drama humano deveria saber que ninguém vira “aula” por existir.

No fim, o legado de Benedito Ruy Barbosa continua enorme, mas não precisa ser lavado em água sanitária. Benedito Ruy Barbosa escreveu obras fundamentais da televisão brasileira e também deu declarações que feriram muita gente. Uma coisa não cancela a outra. Só impede aquela homenagem preguiçosa, toda dourada, que finge que artista grande nunca teve capítulo ruim.

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