A morte de Benedito Ruy Barbosa também fez voltar à tona uma das declarações mais controversas da carreira do autor. Em 2016, durante a divulgação de Velho Chico, novela das nove da Globo, ele foi criticado por falas homofóbicas ao reclamar da presença de personagens LGBTQIA+ em tramas televisivas.
A máquina de lavar já tinha apitado pela segunda vez, eu estava tentando decidir se a roupa de viagem merecia perdão ou incineração, quando esse recorte apareceu no celular. Parei com uma camiseta na mão, porque Benedito é gigante na dramaturgia, mas gigante também deixa sombra. E essa sombra, minha filha, não dá para varrer para baixo do tapete só porque Pantanal tem pôr do sol bonito.

A fala aconteceu na coletiva de lançamento de Velho Chico, em março de 2016. Questionado sobre o que o público queria assistir, Benedito disparou a frase que virou incêndio: “Odeio história de bicha”. Na sequência, tentou justificar dizendo que esse tipo de tema poderia existir e ser aceito, mas não deveria, segundo ele, virar “aula” para crianças.
O autor ainda afirmou ter orgulho de netos que seriam “macho pra cacete”, frase que só piorou a repercussão. A declaração foi recebida como homofóbica por internautas, ativistas e figuras públicas. O nome de Benedito foi parar entre os assuntos mais comentados do Twitter, com gente pedindo boicote a Velho Chico antes mesmo de a novela engrenar de vez.
Eu sei que tem gente que gosta de passar pano em nome da obra. “Ah, mas ele escreveu Pantanal”, “ah, mas ele fez O Rei do Gado”, “ah, mas é de outra geração”. Meu amor, geração explica contexto, não absolve grosseria. Talento não vem com cláusula de imunidade moral, e novela boa não transforma preconceito em opinião inofensiva.
Na época, Jean Wyllys classificou as declarações como deselegantes, reacionárias e homofóbicas. O diretor Luiz Fernando Carvalho, responsável por Velho Chico, também reagiu e chamou a fala de “momento infeliz”. Aguinaldo Silva, outro autor de novelas, entrou na conversa pelas redes sociais, e o assunto virou um problemão de imagem para a Globo.
A emissora, segundo registros da época, chegou a cogitar um comunicado dizendo que as declarações de Benedito não refletiam a política da empresa, mas acabou não se manifestando oficialmente. Depois, teria combinado com o autor e a família que ele não daria novas entrevistas, justamente para evitar que temas polêmicos atrapalhassem a divulgação da novela.
Olha a saia justa: a Globo tentando vender Velho Chico como novelão nobre, visual, poético, ribeirinho, e o autor entregando, no tapete de lançamento, uma frase que parecia saída de um almoço de família dos anos 1970 em que ninguém teve coragem de levantar da mesa. É o tipo de bastidor que departamento de comunicação deve ouvir e procurar uma janela aberta para respirar.
Benedito tentou se defender dizendo que não se considerava preconceituoso e que tinha responsabilidade com milhões de telespectadores. Também reclamou de autores que, na visão dele, idealizariam personagens gays. Mas a tentativa de explicação não apagou o teor da frase original, nem a percepção de que ele tratava a presença LGBTQIA+ na televisão como ameaça pedagógica, quase como se afeto em novela fosse perigoso quando não cabe no modelo tradicional.

E aí está a contradição que eu não consigo engolir calada: Benedito sabia como poucos escrever famílias partidas, paixões proibidas, gente julgada pela terra, pelo sangue, pela origem. Mas, quando o assunto era diversidade sexual, escorregou feio numa visão estreita, antiga e cruel. Um autor que entendia tanto de drama humano deveria saber que ninguém vira “aula” por existir.
No fim, o legado de Benedito Ruy Barbosa continua enorme, mas não precisa ser lavado em água sanitária. Benedito Ruy Barbosa escreveu obras fundamentais da televisão brasileira e também deu declarações que feriram muita gente. Uma coisa não cancela a outra. Só impede aquela homenagem preguiçosa, toda dourada, que finge que artista grande nunca teve capítulo ruim.