O mercado brasileiro de medicamentos destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes passa por uma profunda transformação, alterando a dinâmica entre a indústria farmacêutica, as farmácias de manipulação e o ecossistema médico. Impulsionado pelo crescimento dos agonistas de GLP-1 — categoria que reúne moléculas como semaglutida e tirzepatida —, o segmento movimentou R$ 14,6 bilhões no mercado formal nos 12 meses encerrados em abril de 2026, representando um crescimento de 110% em relação ao período anterior, conforme levantamento da IQVIA compilado pelo Itaú BBA.
As projeções das principais instituições financeiras indicam que esse mercado deverá alcançar R$ 20 bilhões até o final de 2026 e pode atingir R$ 61 bilhões até 2030. Atualmente, os medicamentos da classe já representam 5,7% de todo o varejo farmacêutico brasileiro. Estudos do Itaú BBA mostram ainda que a expansão desse segmento ultrapassa o setor farmacêutico, produzindo impactos em áreas como alimentação, vestuário, aviação e saúde suplementar.
Enquanto a demanda cresce em ritmo acelerado, o acesso aos medicamentos de referência continua limitado tanto pelo alto custo quanto pela disponibilidade. Nesse cenário, o mercado magistral ganhou protagonismo. Das aproximadamente 8.700 farmácias de manipulação em funcionamento no Brasil — segmento que faturou R$ 11,3 bilhões em 2023 —, apenas cerca de 20 possuem a estrutura de alta complexidade exigida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para produzir medicamentos estéreis e injetáveis.
Mesmo concentrado em um grupo reduzido de estabelecimentos, o mercado de GLP-1 manipulado movimentou sozinho R$ 10 bilhões nos últimos 12 meses. Esse ambiente de crescimento acelerado, aliado à necessidade de conformidade regulatória, abriu espaço para novos modelos de negócios voltados à organização desse ecossistema.
Foi nesse contexto que surgiu, em 2024, a M7 Group. Fundada por profissionais com experiência no setor farmacêutico, a empresa opera como um hub especializado em representação comercial, conectando laboratórios magistrais de alta performance a médicos prescritores. O modelo segue a lógica das tradicionais equipes de visitação médica da indústria farmacêutica, porém direcionado ao segmento de medicamentos injetáveis personalizados.
Em apenas 14 meses de operação, a startup ampliou sua equipe técnica de 10 para mais de 70 consultores especializados. Atualmente, mantém atuação direta em 21 estados brasileiros e cobertura em todas as 27 unidades da federação.

Mudanças regulatórias aceleram transformação do mercado
A evolução desse novo ecossistema coincide com mudanças importantes tanto no ambiente regulatório quanto no cenário de propriedade intelectual. Em março de 2026, expirou a patente da semaglutida — princípio ativo dos medicamentos Ozempic e Wegovy —, ampliando significativamente o interesse por alternativas disponíveis no mercado.
Ao mesmo tempo, a Anvisa reforçou a fiscalização sobre a manipulação dessas substâncias. Desde 2025, passaram a valer regras mais rigorosas para o segmento, incluindo a obrigatoriedade da retenção da receita médica e o rastreamento completo da cadeia de insumos por meio do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC).
Além das mudanças regulatórias, outro desafio enfrentado pelo setor é o combate à informalidade. Estimativas de mercado apontam que o comércio paralelo de medicamentos GLP-1 movimentou aproximadamente R$ 12,5 bilhões nos últimos 12 meses, volume equivalente a 1,7 vez as vendas formais do principal medicamento de referência da categoria.
Enquanto isso, dentro do mercado regulamentado, a tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro — consolidou-se como a principal escolha entre pacientes de alta renda, respondendo por 57% do market share do mercado total de GLP-1 em junho de 2026, segundo dados da InfoPrice.
Estruturação comercial busca fortalecer o mercado regulado
Para os fundadores da M7 Group, o crescimento da empresa está diretamente ligado ao fortalecimento do mercado regulado, especialmente diante do endurecimento das normas de fiscalização.
A cofundadora Gabriela Moreira explica que a empresa surgiu ao identificar que laboratórios, médicos e pacientes enfrentavam desafios semelhantes, mas sem um canal estruturado de comunicação e relacionamento capaz de integrar todos os envolvidos.
Na mesma linha, o cofundador e CMO Vinicius de Paula afirma que a saúde exige processos altamente estruturados e que toda a operação foi desenvolvida para oferecer aos médicos o mesmo nível de segurança esperado de um laboratório industrial.
Segundo o CEO Marcos Alves, o próximo passo da companhia é consolidar uma estrutura de governança capaz de acompanhar o ritmo de crescimento previsto para os próximos anos, sustentando a expansão do negócio sob a premissa de que a evolução da saúde depende do fortalecimento de todos os elos que compõem a cadeia.