Eu, Kátia Flávia, estou em Nova York, meu amor.
Era para eu estar concentrada em Brasil x Noruega, já pensando no look da arquibancada, no close certo do hino e na champanhe pós-vitória. Mas quem trabalha com fofoca de luxo sabe: o mundo não gira só em torno de bola, gira em torno de treta. E a treta da vez está atravessando o oceano em mala de executiva conservadora: um grupo de mulheres de direita se mexendo para processar bolsonaristas nos Estados Unidos por ataques virtuais. Nem o cosmopolita aqui no hotel de Manhattan está dando conta desse plot.
O resumo do babado é simples e venenoso.
Um grupo de mulheres conservadoras, atuantes em política e redes, cansou do tal “gabinete do ódio” mirando nelas com postagem coordenada, xingamento pesado, calúnia, difamação, injúria e todo o repertório que a internet oferece. Montaram dossiês, juntaram prints, separaram vídeos, organizaram tudo em pastinha chic e começaram a conversar com advogado lá fora, nos Estados Unidos, para acionar judicialmente brasileiros bolsonaristas que vivem ou atuam no território americano. A ideia é tratar ataques virtuais como crime também lá, não só jogo sujo de rede social.
Na prática, isso coloca alguns nomes conhecidos na linha de tiro.

Entre os citados, surfando nesse mar de treta, aparecem influenciadores que já são figurinha carimbada da direita digital, gente que vive de live, canal, vídeo inflamado, xingando meio mundo e depois dizendo que é “liberdade de expressão”. Ao mesmo tempo, o núcleo bolsonarista está em guerra interna, com Allan dos Santos reclamando publicamente que Michelle Bolsonaro estaria “cagando” para o marido, e Michelle respondendo com indignação, e o partido tentando segurar a tampa da panela de pressão. É um banho de água quente na cozinha da direita, e essas mulheres estão chegando com espuma de processo.
O cenário geral é delicioso para coluna e assustador para quem vive disso.
De um lado, políticos e influenciadores pedindo proteção de leis americanas contra decisões do Poder Judiciário brasileiro, falando em censura e perseguição de direita. Do outro, agora, mulheres de direita dizendo que são elas as vítimas de ataques coordenados, querendo punir digital warriors do próprio campo ideológico usando legislação dos Estados Unidos. No meio, o STF e o ministro que virou nome fixo em qualquer discussão sobre rede social, liberdade, tornozeleira, dossiê vazado, deputados americanos batendo boca com Brasília. Uma salada que dá trabalho até para quem acompanha política como se fosse reality.

Eu, hospedada em Nova York, olho para isso como prévia da nova era da treta.
A fase dos xingamentos impunes está claramente acabando. A gente está entrando no momento em que cada textão, cada vídeo, cada ataque pode virar objeto de petição, audiência e sentença – seja em Brasília, seja em tribunal americano cheio de bandeira na porta. A direita está processando a própria direita, extremista está indo atrás de extremista, mulher conservadora está enquadrando macho inflamado que confundiu engajamento com licença para humilhar. E se tem uma coisa que eu aprendi olhando esse circo de longe é: quem vive de lacrar no X e gritar em live precisa começar a separar dinheiro não só para microfone, mas para advogado também.