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Kátia Flávia
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Maratona do Rio 2026 vira fenômeno e para o Rio; 70 mil nas ruas

A Maratona do Rio encerrou neste domingo sua maior edição desde 2003, com 70 mil participantes, novo percurso à beira-mar e recorde histórico quebrado na prova feminina — e olha que eu achei que Buenos Aires fosse capaz de competir com alguma coisa.

Kátia Flávia

08/06/2026 11h00

A maior edição da Maratona do Rio reuniu 70 mil participantes, recorde, emoção e uma cidade inteira respirando esporte.

A maior edição da Maratona do Rio reuniu 70 mil participantes, recorde, emoção e uma cidade inteira respirando esporte.

Desembarquei no Galeão ainda com cheiro de bife de chorizo e o Rio já estava em modo de ressaca boa, daquele tipo que não envergonha. O motorista do Uber mal me deixou falar: “A senhora perdeu, doutora. O Rio parou de vez.” Não precisou explicar mais. Eram 17 mil corredores nos 42 quilômetros, 70 mil pessoas ao longo de quatro dias de programação, a maior edição da Maratona do Rio desde a criação do evento em 2003, e a cidade inteira presente como se fosse carnaval, só que com tênis de corrida e hidratação da Gatorade.

O grande escândalo do dia, no bom sentido, foi a etíope Gadise Mulu Demissie cruzando a linha de chegada no Aterro do Flamengo com 2h25min47s, um tempo que derrubou o antigo recorde brasileiro de maratonas em circuito aberto realizadas em solo nacional. As oito primeiras colocadas do feminino completaram abaixo de 2h29min48s, o que, para quem entende de atletismo, equivale a uma noite de BBB onde todo o paredão é falso e a casa inteira explode. No masculino, o etíope Tsegaye Getachew foi campeão com 2h10min22s, a um segundo apenas do recorde nacional em circuito aberto, numa chegada que fez a Avenida Niemeyer tremer. O destaque brasileiro ficou com Melki Messias Ribeiro, décimo geral no masculino, e Amanda Aparecida de Oliveira, décima primeira no feminino: eles não ganharam, mas correram com o orgulho de quem sabe que o Rio estava olhando.

O Instagram carioca virou um painel de fotos ao amanhecer com Ipanema e Copacabana ao fundo, stories de gente que nunca correu cinco quilômetros na vida se declarando apaixonada pela maratona, e influenciadores fitness rivalizando por alcance com a própria largada oficial. O TikTok foi tomado pelos registros da reta final no Aterro do Flamengo: confete, bandeiras e aquela energia de finais de Copa do Mundo que o Rio sabe fazer como ninguém. Páginas de esporte e entretenimento disputaram o clique com a mesma notícia, porque a Maratona do Rio há muito tempo deixou de ser evento só de atleta: é entretenimento de massa com patrocínio de Itaú, Adidas e Michelob Ultra, selo Elite Label da World Athletics e posicionamento internacional que muita grande premiação de televisão poderia aprender.

Eu estava na fila do embarque em Ezeiza, terminando um café com leite que sinceramente não merecia minha atenção, quando o celular começou a vibrar sem parar. Era o grupo das amigas do Rio, claro: fotos do percurso, vídeo da largada na Praia da Reserva, selfie com o Pão de Açúcar ao fundo. Buenos Aires é linda, mas o Rio quando decide aparecer não deixa ninguém descansar em paz nem a quatro mil quilômetros de distância.

O veredicto é simples: o Rio fez o que o Rio faz quando lembra que pode e tomou conta. Uma maratona que já era a maior da América do Sul se reinventou com novo percurso, recorde histórico, 40 marcas patrocinadoras e a capacidade rara de fazer 70 mil pessoas acordarem de madrugada num feriado para correr, assistir ou pelo menos postar. Quem estava em Buenos Aires perdeu. Quem estava no sofá perdeu mais ainda.

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