Estou em Nova York, na cobertura da Copa, quando minha fonte em Belo Horizonte me liga contando que Sonia Fátima Moura gravou um depoimento sobre o desaparecimento de Dayanne Rodrigues do Carmo, ex-mulher do goleiro Bruno. Ouvi o áudio três vezes antes de escrever esta coluna, porque o peso das palavras dela pedia cuidado. Sonia lembrou que a Dayanne está desaparecida há dias e cobrou uma postura do estado de Minas Gerais, dizendo que o poder público não pode se omitir diante de mais uma mulher some do mapa sem explicação.
O que mais me tocou no relato foi a comparação direta que ela fez com a própria história. Sonia contou que a filha dela, Eliza Samudio, foi dada como desaparecida há dezesseis anos e que até hoje não recebeu resposta sobre o paradeiro do corpo. Ela usou a palavra estatística, e confesso que fiquei em silêncio um tempo depois de ouvir aquilo, porque é isso que o país fez com o caso de Eliza: transformou uma tragédia em número.
Minha fonte em Minas Gerais me confirmou que a Polícia Civil segue tratando o sumiço de Dayanne como uma hipótese de desaparecimento voluntário, sem indícios de crime até o momento. Mas entendo perfeitamente a angústia de Sonia diante disso. Quem viveu dezesseis anos esperando uma resposta sabe que a linha entre alívio e tragédia é fina, e que toda mulher que desaparece no Brasil merece que a busca por ela seja levada a sério desde o primeiro minuto.
Termino esta coluna torcendo, como Sonia torce, para que a história de Dayanne tenha um desfecho diferente da de Eliza. O Brasil já perdeu tempo demais tratando desaparecimento de mulher como rotina, e é exatamente isso que a fala de Sonia Fátima Moura vem lembrar a todos nós, de Minas Gerais até aqui em Nova York.