No Cosme Velho, entre um café passado por copeira antiga e um áudio de ex-BBB reclamando de contrato, o meu grupo de WhatsApp de nerd velho começou a apitar em CAPS LOCK. O nome era um só: Hikaru Kurosaki, o nosso eterno Jaspion, bombeando no Google como se fosse final de Copa. Aí você já me conhece, larguei o esmalte nude, puxei a cadeira da fofoca e fui atrás do que a criançada que cresceu na Rede Manchete nunca soube sobre o japonês mais famoso do Brasil.
Primeiro choque: Hikaru é nome artístico, meu amor, porque o moço nasceu mesmo Seiki Kurosaki, em 1962, em Osaka, bem longe da Avenida Brasil que fez dele um semideus da televisão brasileira. Antes de virar herói metálico, ele entrou para a famosa escola de dublês de Sonny Chiba ainda adolescente, apanhando de monstro e caindo de prédio por um cachê que mal pagava o yakisoba. E, sim, ele já apareceu como soldado na versão japonesa de “Spider-Man” dos anos 1970, aquela que hoje sobrevive na memória dos colecionadores.

Quando Jaspion chegou, em 1985, Seiki já tinha currículo de dublê e ator, inclusive em dramas de época. Foi ali que a vida virou episódio especial. A pose de transformação que você imitou na sala, derrubando o bibelô da sua mãe, nasceu da cabeça dele, que queria um gesto diferente dos outros heróis da época. E, mesmo sendo dublê, olha o plot twist: ele não era quem ficava dentro da armadura nas cenas de ação. Esse trabalho era feito por um especialista em trajes metálicos, enquanto Hikaru aparecia nos closes sem capacete.
Nos bastidores, o coração também trabalhava. Seiki se apaixonou por uma colega de elenco de outro tokusatsu, a atriz Yoko Asuka, que depois interpretaria a vilã Fara, em “Choudenshi Bioman”. Eles se casaram em 1987, viraram casal conhecido entre os fãs do gênero e, alguns anos depois, trocaram os estúdios por uma vida completamente diferente. Juntos abriram uma escola de mergulho em Okinawa, que se tornou o sustento do ex-astro depois que ele decidiu pendurar o figurino.
E por que ele chutou o set, Kátia? Porque a vida de dublê não tem nada de romântica, benzinho. Seiki saiu decepcionado com a forma como as produções tratavam a segurança de quem arriscava a própria vida em cenas perigosas. Um acidente grave envolvendo um colega marcou profundamente a equipe, e isso pesou na decisão de abandonar de vez o circuito de séries, eventos e reencontros nostálgicos.
Enquanto no Japão Jaspion foi um sucesso importante, mas dentro do esperado, aqui no Brasil a criatura virou um furacão. A série ajudou a transformar qualquer herói japonês em “Jaspion” na boca do povo. As reprises da Rede Manchete, o merchandising e a febre dos tokusatsus fizeram Hikaru Kurosaki ser mais cultuado pelos brasileiros do que pelos próprios japoneses. Não à toa, muitos fãs passaram anos tentando encontrar sua escola de mergulho em Okinawa apenas para conseguir uma foto.

Foi justamente esse turismo afetivo, muitas vezes invasivo, que acabou afastando ainda mais o ex-ator dos holofotes. Ele preferia ser lembrado como um instrutor de mergulho tranquilo do que como o homem preso para sempre a um capacete de 1985.
O resumo é cruel, mas honesto, meu anjo: o Brasil transformou Hikaru Kurosaki em lenda, mas ele passou a vida adulta tentando ser apenas Seiki, trabalhador de praia, marido, instrutor de mergulho e alguém que queria viver em paz. A comoção de agora é compreensível, porque esse homem ajudou a construir o imaginário pop de uma geração inteira. Mas talvez o maior respeito que a gente possa oferecer seja aceitar que o herói pendurou a armadura há muito tempo. E, se depender de Kátia Flávia, Jaspion continua fantástico, mas o sujeito lá de Okinawa, esse sim, merecia ter tido um fandom menos carente e um pouco mais educado na hora de bater à porta.