Aliados de Flávio Bolsonaro enxergam uma possível influência do ministro André Mendonça no ataque público feito por Michelle Bolsonaro ao enteado, de acordo com informação publicada por Lauro Jardim, em O Globo, neste domingo (5/7). A suspeita envolve o caso Banco Master, investigação sob relatoria de Mendonça no Supremo Tribunal Federal e que tem potencial para produzir novas operações da Polícia Federal.
Eu já tinha terminado a parte mais dramática da arrumação e estava sentada na poltrona do quarto, no Mandarin Oriental, tentando escolher uma playlist brasileira que não chamasse derrota antes da hora, quando essa fofoca política atravessou o Atlântico e caiu no meu celular. O jogo contra a Noruega ainda está longe, só às 17h, mas Brasília decidiu entrar em campo cedo, com Michelle, Flávio, ministro do STF e aquele tempero de bastidor que faz qualquer rímel tremer.

Segundo Lauro Jardim, o entorno de Flávio está convencido, seja teoria da conspiração ou não, de que a investida de Michelle contra o senador pode ter sido abastecida por informações vindas de André Mendonça. O ministro é relator do caso Master no STF e, nessa posição, cabe a ele autorizar novas diligências da Polícia Federal no inquérito.
A desconfiança teria um componente de proximidade religiosa e política. Michelle foi uma das principais madrinhas da indicação de Mendonça ao Supremo, no período em que Jair Bolsonaro prometia colocar na Corte um ministro “terrivelmente evangélico”. Mendonça, assim como a ex-primeira-dama, tem forte identificação com o público evangélico.
Minha filha, é a versão gospel do “quem contou isso para você?”. Porque, no bolsonarismo, quando uma briga familiar vira crise nacional, ninguém acredita que alguém abriu a câmera do celular só por emoção. Sempre aparece uma teoria, uma mão invisível, um ministro no fundo do salão e uma planilha espiritual do apocalipse.

O pano de fundo é pesado. Flávio Bolsonaro já vinha sendo pressionado por revelações envolvendo Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e a tentativa de financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Reportagens internacionais, como Associated Press e The Guardian, noticiaram que mensagens de voz atribuídas ao senador indicavam pedido milionário a Vorcaro para bancar a produção.
Flávio negou irregularidades e afirmou que a busca por apoio financeiro para o filme era uma iniciativa privada, sem oferta de benefício público. Ainda assim, o caso virou munição política no momento em que ele tenta se consolidar como herdeiro eleitoral do pai.
O Banco Master, por sua vez, está no centro de um escândalo financeiro de grandes proporções. Daniel Vorcaro foi preso, o banco entrou em liquidação e as investigações passaram a atingir políticos, empresários e figuras influentes de Brasília. André Mendonça assumiu papel central no caso dentro do STF, inclusive em decisões ligadas ao avanço das apurações.
É nesse caldeirão que entra a briga de Michelle e Flávio. A ex-primeira-dama expôs publicamente o enteado após uma crise envolvendo articulações políticas do PL, especialmente no Ceará. O vídeo de Michelle abriu uma guerra dentro da família Bolsonaro, com direito a cobrança de desculpas, aliados tentando apagar incêndio e o eleitorado conservador assistindo tudo como novela de domingo.
O entorno de Flávio, agora, tenta entender se Michelle agiu apenas por irritação política ou se recebeu algum tipo de informação sensível antes de partir para o ataque. A suspeita sobre Mendonça, reforço, é bastidor de aliados do senador, não fato comprovado.
E é aí que a fofoca fica mais venenosa. Porque se for só briga de família, já é um estrago. Mas se o entorno de Flávio acredita que a madrinha política de um ministro do STF pode ter recebido sinal de bastidor sobre uma investigação que assombra o próprio Flávio, aí o enredo sai da sala de estar e entra no gabinete com carpete, processo e ar-condicionado gelado.
Eu aqui em Nova York olhando para o céu nublado penso que Haaland pode até ser ameaça na área, mas o verdadeiro mata-mata de hoje começou cedo em Brasília. De um lado, Michelle tentando preservar força própria entre evangélicos e mulheres conservadoras. Do outro, Flávio tentando manter a candidatura em pé enquanto o caso Master ronda sua campanha como cobrança que não para de tocar no interfone.
No bolsonarismo, ninguém briga sozinho. Sempre tem padrinho, madrinha, pastor, ministro, herdeiro, assessor e um áudio que aparece na pior hora possível. E se a suspeita dos aliados de Flávio estiver mesmo circulando com força, a crise familiar acaba de ganhar um novo personagem de toga.