“Quem Ama Cuida” vai abordar a dificuldade de reinserção de ex-presidiários no mercado de trabalho. Nos próximos capítulos da novela das nove da Globo, Adriana, personagem de Leticia Colin, tentará voltar a atuar como fisioterapeuta após passar seis anos presa, mas enfrentará preconceito ao buscar uma nova oportunidade.
Eu estava com a câmera desligada na primeira reunião da tarde, fingindo concentração corporativa enquanto tentava entender por que alguém ainda marca chamada às 16h com pauta que poderia ser áudio de 40 segundos, quando recebi o spoiler de Adriana levando uma rasteira profissional. Fechei a aba da planilha na hora. Porque uma coisa é reunião inútil, outra é vilã mexendo os pauzinhos para impedir mulher de trabalhar. Aí, meu bem, eu volto para a novela como quem volta para a guerra.

Segundo a coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo, Adriana vai procurar clínicas para reconstruir sua vida depois de sair da prisão. Em uma delas, consegue uma entrevista e começa a criar esperança de contratação. Só que Pilar, vivida por Isabel Teixeira, entra no circuito para atrapalhar. A vilã fala com a dona da clínica e conta a acusação que pesa contra Adriana.
O resultado é cruel. A entrevista é cancelada, e a mulher dispara que não contrata “ex-presidiários e assassinas”. É uma frase pesada, do tipo que novela coloca na boca de personagem para cutucar um problema real. Porque, fora da ficção, muita gente também diz acreditar em segunda chance até a segunda chance bater na porta pedindo carteira assinada.
Adriana, vale lembrar, é fisioterapeuta de formação. Ou seja, não está pedindo favor, não está tentando voltar por atalho, não está implorando por redenção cenográfica. Ela está tentando trabalhar. E é justamente aí que a trama toca numa ferida social: o mercado adora discurso de recomeço, mas morre de medo de gente com passado difícil no crachá.
A Globo pretende usar o episódio como merchandising social, trazendo para a novela o debate sobre a reintegração de pessoas condenadas à sociedade. O tema já estava previsto na sinopse, segundo a publicação, e ganha força em uma fase em que Quem Ama Cuida vem crescendo em audiência.
Na semana da virada de fase, entre 29 de junho e 4 de julho, a novela alcançou recorde semanal na média nacional, com 23 pontos de audiência e 40% de participação no Painel Nacional de Televisão. No Rio de Janeiro, o desempenho também foi alto: 28 pontos e 43% de participação. Ou seja, Adriana não vai sofrer sozinha, não. Vai sofrer com o Brasil inteiro assistindo, julgando Pilar e gritando para a clínica contratar logo essa mulher.
Eu gosto quando novela lembra que drama social não precisa vir vestido de palestra. Às vezes basta uma entrevista cancelada, uma frase atravessada e uma vilã fazendo ligação venenosa para o público entender o recado. Pilar é esse tipo de pessoa que não empurra ninguém da escada no capítulo, mas mexe no telefone e destrói uma vida com a mesma eficiência. É o mal com agenda, contato e voz calma.
Depois da humilhação, Adriana conseguirá uma vaga com uma mulher que acredita em seu potencial e decide lhe dar uma chance. E é aí que a novela pode acertar bonito: mostrar que reinserção não é romantizar crime, nem apagar passado. É permitir que alguém cumpra o que deve, volte ao mundo e consiga existir sem ser condenado de novo a cada entrevista de emprego.

A trama também prepara outra virada importante: a chegada de Heitor Brandão, personagem de Renato Góes. Ele é o filho desaparecido de Arthur Brandão, vivido por Antonio Fagundes, e tem direito à herança do pai. Isso promete bagunçar o tabuleiro familiar e jogar mais gasolina em um folhetim que já está andando com o fósforo aceso.
Eu voltei para a reunião com cara de quem estava anotando meta, mas na verdade só pensava em Adriana. Porque Quem Ama Cuida está mexendo naquele lugar bom da novela: o lugar em que a gente fica com raiva de personagem, mas percebe que a vida real é ainda mais dura. Pilar pode ser ficção. A porta fechada para ex-presidiário, infelizmente, é Brasil em horário comercial.