Longyearbyen, no arquipélago norueguês de Svalbard, ficou famosa pela história de que seria “proibido morrer” por lá. A curiosidade voltou a circular neste domingo (5/7), dia de Brasil x Noruega nas oitavas da Copa, mas a explicação real envolve solo congelado, cemitério fechado para novos corpos e falta de estrutura para cuidados prolongados.
Depois do café, eu já estava conferindo se a bolsa do estádio tinha capa de chuva, carregador portátil e um mínimo de sanidade para enfrentar brasileiro nervoso em Nova Jersey quando apareceu essa pérola sobre a Noruega. Minha filha, eu vim preparada para Haaland, frio psicológico e drama de mata-mata, mas não para descobrir que o rival do Brasil tem uma cidade onde até morrer virou burocracia.
A cidade em questão é Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, no extremo norte da Noruega. O lugar é conhecido pelo frio pesado, pela presença de ursos-polares e por uma fama meio macabra: a de que ninguém poderia morrer por lá.

Calma, não é que a prefeitura tenha colocado um fiscal na porta da vida eterna. Morrer não é ilegal em Longyearbyen, até porque nem a Noruega conseguiu legislar contra o inevitável. O que existe é uma combinação de fatores que tornou a cidade quase um “não recomendado” para nascer, morrer ou precisar de cuidado contínuo.
O principal motivo é o permafrost, aquela camada de solo permanentemente congelada que cobre a região. Como a terra não descongela direito, corpos enterrados não se decompõem normalmente e podem ficar preservados por muitos anos. E aí mora o problema: microrganismos também podem permanecer ali.
Pesquisadores já encontraram vestígios do vírus da gripe espanhola em vítimas enterradas no cemitério local durante a epidemia de 1918. Depois disso, minha filha, eu entendo perfeitamente a cidade olhar para o cemitério e dizer: “Hoje não, Faroeste Frozen”.
Por causa dessas condições, o cemitério de Longyearbyen deixou de permitir novos sepultamentos de corpos em 1950. Desde então, quando alguém morre, o comum é que o corpo seja levado para o continente norueguês.

E não para por aí. A cidade também não tem estrutura para oferecer cuidados de longa duração, como assistência permanente a idosos ou pacientes em cuidados paliativos. Quando um morador precisa desse tipo de atendimento, normalmente é transferido para outra região da Noruega.
A fama de “cidade onde é proibido morrer” ganhou força depois de uma reportagem internacional de 2008, que ajudou a transformar a história em lenda urbana. Anos depois, autoridades locais explicaram que o lugar não é uma comunidade “do berço ao túmulo”. Em outras palavras: pode até morar, trabalhar e tirar foto bonita na neve, mas não inventa de organizar a vida inteira ali.
Até nascimento é complicado. Longyearbyen não possui maternidade, e grávidas são orientadas a viajar para o continente semanas antes da data prevista para o parto. Ou seja, a cidade não proíbe nem nascer nem morrer, mas também não faz muita questão de facilitar nenhum dos dois.
No meio do pré-jogo, a curiosidade cai como fofoca perfeita sobre a Noruega: o Brasil preocupado com Haaland, Ancelotti calculando escalação, torcida pintando o rosto, e eu aqui descobrindo que existe um lugar onde o cemitério entrou em modo “lotação encerrada” desde 1950.
Se isso não é aquecimento de Copa com cara de conversa de salão, eu não sei mais o que é. Hoje tem Brasil x Noruega no MetLife Stadium, mas antes da bola rolar a adversária já entregou um cartão de visita gelado, estranho e altamente comentável: terra de vikings sem chifre, Haaland sem dó e cidade onde até defunto precisa fazer conexão.