A torcida da Noruega adotou capacetes com chifres e a chamada “remada viking” como marcas nesta Copa do Mundo, mas boa parte dessa estética não tem origem histórica real. Segundo especialistas, os guerreiros nórdicos da Era Viking nunca usaram capacetes com chifres, e a famosa remada dos torcedores também é uma invenção moderna.
Eu tinha pedido água com gás no restaurante do hotel e estava fingindo maturidade diante do cardápio, quando vi Haaland de capacete com chifre e precisei rir sozinha. Porque o Brasil passa a manhã inteira estudando o atacante, a defesa, o clima e a pronúncia do nome do homem, e agora descubro que até o figurino viking da Noruega é meio fake news medieval. Minha filha, o chifre pelo menos hoje não é nosso, é deles, e ainda por cima é cenográfico.
A imagem do viking com capacete de chifres virou uma das representações mais conhecidas dos povos nórdicos, mas não corresponde ao que se sabe historicamente. A associação surgiu séculos depois da chamada Era Viking, por influência de artistas europeus que passaram a retratar guerreiros nórdicos com esse acessório por liberdade criativa.

Ao g1, Johnni Langer, professor da UFPB e membro do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos da universidade, explicou que os chifres tinham outro peso simbólico no século 18. Eles eram ligados a força, poder e virilidade masculina, não à traição, como no imaginário brasileiro de hoje.
“No século 18, as nações estavam procurando disseminar imagens de estados fortes e marciais, então esta imagem caiu como uma luva”, afirmou o especialista.
A moda visual ganhou força com artistas escandinavos influenciados pela tradição alemã, que já retratava antigos guerreiros germânicos com esse tipo de capacete. Depois, a imagem explodiu com as óperas de Richard Wagner, que ajudaram a espalhar lendas nórdicas pela Europa, Estados Unidos e até Brasil.
Ou seja, o capacete com chifre tem mais a ver com palco, pintura e cultura pop do que com batalha real. É como se a Noruega tivesse chegado à Copa fantasiada de si mesma, mas usando uma versão inventada por figurinista de outro século. Eu acho maravilhoso, porque todo país tem direito a uma mentira estética de estimação.
Nem os vikings eram exatamente esse bloco único de homens altos, loiros, fortes e cinematográficos. Segundo Langer, havia nórdicos de diferentes tipos físicos, inclusive pessoas mais baixas, de cabelo escuro e descendentes de outros povos. Também existiam casamentos interétnicos com populações siberianas, asiáticas e de outras regiões.

A tal “remada viking”, que viralizou entre torcedores noruegueses, também é mais recente do que parece. Os vikings eram grandes navegadores, claro, mas não há registro de que movimentos de remada fossem usados como celebração, ritual religioso ou festa.
“Remar era uma atividade prática executada em navios de guerra, que tinham velas e remos. Nos mercantes só tinha uma vela, sem remos. Não existia qualquer tipo de comemoração, ritual religioso ou festa que envolvesse remadas. Isso é uma invenção moderna”, explicou o professor.
A coreografia atual foi criada em março de 2026 pelo professor norueguês Ole Frøystad, que queria desenvolver um cântico simples para engajar a torcida. A ideia foi testada em amistoso contra a Suíça e depois divulgada em vídeos que ensinavam os torcedores a “remar” de forma sincronizada.
Eu respeito. Se o Brasil tem coreografia, meme, dancinha, batuque e gente fazendo promessa com camisa da sorte, a Noruega também pode inventar uma remada coletiva e fingir tradição milenar. Só não venha dizer que isso saiu direto de um navio do século 9, porque aí a Kátia chama o historiador e acaba a graça.
Antes de enfrentar o Brasil, a Noruega já chega com dois personagens: Haaland, o perigo real, e o capacete com chifre, o perigo cenográfico. Um a gente precisa marcar dentro da área. O outro a gente pode zoar com base acadêmica.