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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Nervos à flor da pele

Folhetim – Outro lugar na Solidão. Capítulo 8

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Por Marcos Linhares, Adriana Kortland e Marcelo Capucci
Especial para o Jornal de Brasília

Giacomo Maurício coçou a cabeça ao lembrar que há pouco tempo, inocentemente, junto à equipe cirúrgica, antes de um procedimento, ele, sem querer, jura, chamou Suzana de “princesa”. Mal acabara de pronunciar a palavra, arrependeu-se. Ela abriu os olhos de paixão:

– Até que enfim! Disse à equipe, muda. Giaco, absorto, pensava no livro que acabara de ler: “O Príncipe”, de Maquiavel, que eternizou a expressão “os fins justificam os meios”. O contexto do comentário, ele se lembra direitinho: Suzana fazendo das suas, com voz triste, rouca, sexy, ligando para o Chile e usando seu espanhol de sotaque perfeito para encomendar 75 mil máscaras e EPIs, diretamente da China, para o hospital deles, passando batido por encomendas anteriores.

– Lá vem ela! Murmurou Giaco, enquanto estacionava o carro na vaga privativa do hospital.

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– Oi, Suzana! Que foi? Que cara é essa?

– O Jamil teve um acesso de tosse incontrolável, e Dona Layla me ligou. Você não viu minhas chamadas? Está acontecendo alguma coisa? Posso te ajudar? Interrogou a chefe da enfermaria central.

– Não, nada! Respondeu Giaco, entrando no hospital ao lado de Suzana. Olhou o celular. Acabara de receber uma mensagem de Nonata. Reparou as chamadas ignoradas, mas não comentou. Guardou-o no bolso, advertindo-se em pensamento a não o esquecer sabe-se lá onde.

– Se Jamil testar positivo, Suzana, a gente pode esperar outras consequências. Você pode ir fazer o teste nos meus pais?

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– Claro. Agora. O que mais você precisa?

– Mudar de planeta.

Os pensamentos de Suzana a incendiaram:

– Mudar de planeta? Deve ser com a perua do WhatsApp. Aposto!

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Suzana dirigiu-se à sua sala, passando pelos funcionários como se eles não existissem. Havia uma tarefa urgente a realizar. Juntamente a esses testes, ela também tinha uma missão pessoal: checar se Dona Layla estava a par desta novidade na vida de Giaco.

Ela se cobrava sobre até quando suportaria o papel de “faz tudo”, fiel escudeira para o que der e vier, mulher forte atrás de Giaco. Atrás em todos os sentidos, pensava, irritada com sua sina:

– Corro atrás desse homem, resolvo o que quer que ele peça, e o que detesto mais do que tudo: vivo escondida atrás da máscara da amiga gente boa, a que tudo suporta, desinteressadamente.

Entrou, trancou a porta e respirou fundo:

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– Essa tal Nonata é nova no pedaço. Devem ter se conhecido no congresso. Mais uma para tirar do caminho, disse Suzana para si mesma, enquanto ligava para o laboratório, dando ordens para que dois kits de teste fossem reservados, imediatamente:

– Passo aí em cinco minutos! Deu as ordens e ligou para Layla, domesticando a voz:

– Dona Layla, bom dia! Seu filho me pediu que eu desse uma passada aí para testar a senhora e o Seu Giacomo. Pode ser?

– Ai, meu filho não para de se preocupar! Pode Suzana. Mas meu marido está na prefeitura e disse que vai ficar por lá até tarde. Você pode dar uma passadinha por lá?

– Claro! Não se preocupe! Até daqui a pouco, respondeu Suzana, engolindo a ansiedade com eficiência e zelo.

– Dessa vez ela vai ter de agir! Pensou, saindo da sala para o laboratório.
Dirigindo para a casa da primeira dama, evitando roer as unhas, Suzana parou no sinal, abriu o vidro e deu um saquinho com castanhas do Pará para um menino que veio em sua direção.

– Dona Suzana, brigado! Sabe, lá em casa a gente não vê comida desde ontem…

– Joaquim, diz pra sua mãe que hoje eu passo lá com uma cesta básica. Prometo.

– Digo sim, Dona Suzana. Deus lhe pague!

Ao chegar ao palacete, estacionou na vaga da garagem – privilégio dos amigos –, arrumou-se pelo retrovisor e foi em direção à porta principal. Antes que tocasse a campainha, Dona Layla abriu a porta.

– Entre, Suzana. Pode colocar suas coisas aqui, na mesinha da sala. Acho exagerado esse teste, nem saio de casa. Mas…

– A senhora sabe como é seu filho. Atrás daquele jeitão sisudo tem um coração enorme! Onde posso lavar as mãos?

– Por favor, no lavabo. Tem álcool em gel do ladinho da toalha.

Suzana saiu do banheiro e, esfregando as mãos, foi em direção à maleta, abriu-a, colocou luvas, pegou o kit e explicou o procedimento à Layla:

– Este teste é o RT-PCR, é o mais assertivo porque utiliza a biologia molecular. O laboratório busca o material genético do vírus no paciente. Pra isso, vou coletar uma amostra de secreção nasal e da garganta. Não dói nada! Giaco me disse que a senhora não apresenta sintomas, mas ele anda meio desconfiado da tosse de seu marido, por isso pediu que eu fizesse o teste nos dois, até mesmo no Jamil, que está sempre aqui, né?!

– Nele também? Aquele ali não pega nada.

– Ele é bem robusto, mas o vírus… Levante a cabeça, só um pouquinho, e abra a boca. Assim! Suzana coletou o material, enquanto Layla fazia caretas.

– Pronto! Disse a enfermeira, tentando disfarçar a ansiedade. Vou cuidar pessoalmente para que o resultado seja entregue em mãos amanhã. Hmm… ãh… Dona Layla, a senhora sabe o quanto seu filho é importante para mim. Sabe, não quero me intrometer, nem ser inconveniente…

– Ai, Suzana. Você sabe que eu detesto esses floreios. Diz logo! Aconteceu alguma coisa?

CONTINUA NA QUINTA-FEIRA


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