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Tragédia anunciada: DF a 35 metros do apagão

Essa é a distância que separam três torres de linha de transmissão de energia de uma enorme erosão, que avança na direção dos equipamentos

Por Ary Filgueira 19/10/2021 5h00

A chegada da chuva nunca foi tão aguardada como neste ano. Mas não era para menos, uma vez que havia chance real de racionamento de energia devido ao baixo volume dos reservatórios. Então, o período chuvoso chegou, mas a ameaça de apagão está perto. Mais precisamente a 35 metros.

Essa é a distância de três torres de linha de transmissão de energia de uma enorme erosão, que avança na direção dos equipamentos a cada chuva, engolindo tudo o que encontra em sua frente. As três estão fixadas dentro de uma fazenda em Águas Lindas (GO).

Não é preciso ser técnico ou engenheiro para antever o problema que esse encontro causará se as torres caírem. Como são interligadas por fios de alta tensão, basta a queda de uma para provocar um verdadeiro efeito dominó. O que certamente causaria a interrupção de luz em todo o Distrito Federal.

Segundo o proprietário da fazenda, Gilberto Camargos, 57 anos, a situação que coloca em xeque-mate as duas torres foi provocada justamente por elas mesmo. As concessionárias de energia Furnas e Transmissora Aliança de Energia Elétrica S.A. (Taesa), não se preocuparam com a captação de águas pluviais ao instalar os equipamentos. “Eles tiveram de fazer a terraplanagem, mas não colocaram boca-de-lobo e nem bolsão para acumular a água. Então, a água da chuva vem toda aqui para minha propriedade. Isso provocou a erosão, que chega a avançar dois metros a cada chuva. Imagina agora, que está no período de chuva?”, alerta Gilberto.

O Jornal de Brasília teve acesso ao relatório elaborado pela Taesa sobre essa ameaça provocada pelas erosões. Segundo a empresa, “as equipes de manutenção identificaram um processo erosivo nas proximidades do vão entre as torres 429 e 430 da Serra da Mesa/Samambaia C3 (que é a identificação que as torres recebem), provocado pelo direcionamento das águas pluviais de uma estrada lateral nas proximidades da linha de transmissão”.

Em outro ponto do documento, a concessionária admite a possibilidade de haver danos estrutural do empreendimento (no caso, das torres). Mas afirmou que o processo não foi provocado pela instalação das torres. “A origem principal da erosão está correlacionada com o curso d’água provocado pela estrada lateral nas proximidades da referida linha de transmissão”. E recomendou à Prefeitura de Águas Lindas providências urgentes para a solução do problema.

No mesmo relatório encaminhado para a prefeitura, a Taesa afirma que houve uma intervenção física na área expondo a instalação de novos processos erosivos. A empresa requer que a prefeitura providencie de forma urgente a instalação de sistema de drenagem de proteção, incluindo drenagens superficiais e dissipadores de energia com o objetivo de mitigar os impactos relacionados com a erosão.

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Ao ser notificada extrajudicialmente pela Taesa, a Prefeitura de Águas Lindas rechaçou a afirmação da concessionária de energia. Mas não se esquivou de colaborar numa eventual ação conjunta com a empresa. “Sugerimos a própria notificadora (Taesa) ou os municípios de Águas Lindas e Cocalzinho façam em conjunto os estudos técnicos necessários para se estabelecer os limites e a quantificação da responsabilidade de cada um na geração do processo erosivo constatado”, destacou a prefeitura.

Ainda em outro ponto da resposta ao laudo técnico da Taesa, a prefeitura sugere que a Secretaria de Meio Ambiente de Goiás consulte do Instituo Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – órgão ambiental licenciador da linha de transmissão – sobre a responsabilidade do licenciamento na execução de medidas técnicas a serem adotadas para a manutenção da qualidade das áreas onde se instalaram os equipamentos.

Mas ficou apenas nesse jogo de empurra. Da época de concepção desse relatório – julho deste ano – para cá, nada foi feito. Enquanto a solução não sai da teoria, na prática, a erosão vai se aproximando das torres. E o risco delas desabarem é cada vez mais sério.

Segundo o proprietário da terra, um engenheiro de Furnas esteve no local e alertou que a situação é realmente grave. “Ele falou que, se as torres desabarem, vai faltar energia geral, pois uma vai puxar a outra para o chão. Brasília vai ficar no apagão. Mas parece que as empresas não estão preocupadas com isso. Só eu mesmo. Aqui já são mais de 30 erosões que se formaram depois da vinda dessas torres para cá”, afirma Gilberto, mas, segundo ele, somente duas erosões ameaçam as torres da Taesa e de Furnas.

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A reportagem entrou em contato com o Operador Nacional do Sistema (ONS). Este, por sua vez, informou que a responsabilidade do problema seria das concessionárias. Entramos também em contato com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que repetiu a informação anterior. Procuramos Furnas, mas a empresa até o fechamento desta reportagem não havia se manifestado acerca do problema. A Taesa, por sua vez, já havia se explicado no laudo que emitiu para a Prefeitura de Águas Lindas, não havendo mais necessidade de um novo contato.

Enquanto predomina um apagão de ideias e responsabilidade para sanar o problema ou admitir providências, respectivamente, um verdadeiro blackout de verdade se aproxima de Brasília a cada chuva que desaba sobre a capital federal.








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