Após autorização da Justiça, a Polícia Federal cumpriu nesta quinta-feira (1º) mandado de busca e apreensão na sede da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) em busca de novas provas para embasar as investigações em torno de um esquema de desvio de dinheiro das obras de reconstrução do Mané Garrincha. A ação é um desdobramento da Operação Panatenaico, que, na semana passada, levou para a prisão dois ex-governadores do DF e um ex-vice.
A medida, autorizada pela Justiça Federal, aconteceu após a análise do material apreendido no dia 23 de maio, quando ocorreu a primeira fase da operação. Neste dia, foram encontrados pen drives com supostas planilhas de pagamento de propinas. Os dados foram encontrados com Maruska Lima e Nilson Martorelli, ex-presidentes da Novacap, e teriam servido de base para as buscas ocorridas hoje, na sede da Companhia, onde os policiais passaram aproximadamente duas horas recolhendo materiais.
Foram presos na semana passada os ex-governadores Agnelo e Arruda, o ex-vice-governador Tadeu Filippelli; Maruska Lima e Nilson Martorelli, ex-presidentes da Novacap; os operadores Jorge Luiz Salomão, Sérgio Lúcio de Andrade e Afrânio Roberto de Souza Filho; Cláudio Monteiro, ex-secretário extraordinário da Copa do Mundo; e Fernando Márcio Queiroz, dono da Via Engenharia. Todos foram liberados na última quarta-feira (31).
A repercussão das prisões foi grande, em função da vultosa propina apontada pela investigação e das posições deles – Filippelli, por exemplo, atuava como braço direito do presidente Michel Temer no Palácio do Planalto. O custo total do estádio saiu por mais de 1,8 bilhão, sendo que o orçamento inicial era de R$ 600 milhões. O superfaturamento, portanto, pode ter chegado a quase R$ 900 milhões.
Confira a lista com os nomes dos investigados e suas funções
José Roberto Arruda (ex-governador): De acordo com a investigação, Arruda quando então governador em 2009 e 2010, teria sido quem tramou toda a “fraude licitatória” ao articular a saída de outras construtoras e determinar as Construtoras AG e Via Engenharia como vencedoras do processo, “mediante recebimento de propina”. “Todos os elementos até agora juntados sinalizam para o fato de que Arruda liderou no início a associação criminosa em conluio com as Construtoras, havendo indícios de práticas suas de delitos de fraude à licitação e lavagem de dinheiro”, diz a PF.
Agnelo Santos Queiroz (ex-governador): Foi o governador que construiu o Estádio. Nas palavras da delegada, “executou a obra bilionária”. Agnelo teria articulado na Câmara Legislativa para que a Terracap pudesse executar a reforma do Mané para a Copa do Mundo. De acordo com a investigação, o ex-governador recebeu “milionária propina”, por meio de seu interlocutor mais usual, Jorge Luiz Salomão.
Nelson Tadeu Fillipelli (ex-vice-governador): Fillipelli teria se associado e cometido delitos de corrupção e lavagem de dinheiro, tendo feito diversos pedidos de propina da Andrade Gutierrez. “Inclusive recebera propina para o seu partido PMDB, entre 2013 e 2014, tendo recebido valores ilícitos também da Construtora Via Engenharia tudo em função da realização das obras e na execução do contrato licitatória em que as duas Empresas saíram vencedoras e executaram a obra hiperfaturada”, informa o relatório da investigação.
Maruska Lima de Souza Holanda (ex-presidente da Terracap): Como apontam os documentos, ex-presidente da Terracap e que exerceu outros cargos relevantes no GDF, foi integrante da Comissão de Licitação que consagrou as Empresas Via Engenharia e Andrade Gutierrez como vencedoras do certame da Construção do Estádio. Maruska “na qualidade de diretora da Novacap e depois presidente da Terracap teria recebido valores ilícitos, tanto da Via Engenharia, quanto da Construtora AG, tudo a apontar que pode ter incorrido nos delitos de corrupção, fraude à licitação, associação ou organização criminosa e lavagem de dinheiro”, acrescenta a delegada da PF.
Nilson Martorelli (ex-presidente da Novacap): outro Diretor, então Presidente da Novacap e igualmente ocupante de outros cargos executivos no GDF, bastante ligado à obra teria recebido propina durante os aditamentos contratuais da reforma do Estádio Mané Garrincha.
Jorge Luiz Salomão (intermediário de Agnelo): Salomão, de acordo com os autos, teria sido o “intermediário sistemático e usual do então governador Agnelo Queiroz no recebimento dos valores das Construtoras”. Jorge teria recebido “em mãos”, no canteiro de obras, “vultosos valores de propina destinados ao ex-governador”.
Sérgio Lúcio Silva de Andrade (interlocutor de Arruda): Consta no relatório da investigação que Andrade é “apontado como o operador de José Roberto Arruda na segunda fase de pedido de propina, a partir de 2013: era o interlocutor; a pessoa próxima e de confiança do ex-governador; era quem pedia e recebia o dinheiro para o ex-governador, inclusive lhe foi repassado um valor de dois milhões de reais diretamente de funcionários das Construtoras”.
Francisco Cláudio Monteiro (ex-secretário da Copa): Liderado e chefe de gabinete de Agnelo Queiroz, Monteiro foi o representante do GDF para a Copa do Mundo e segundo relatos de colabores, teria recebido a pedido de Agnelo, o valor de R$ 250.000,00.
Fernando Márcio Queiroz (dono da Via Engenharia): Proprietário da Empresa Via Engenharia, o empreiteiro participou de toda a história criminosa da Construção do Estádio de Brasília, segundo aos autos, desde o governo de Agnelo até o de Arruda. Também há “indícios de que teria corrompido, sempre por meio do seu Diretor Alberto Nolli, a então Presidente da Terracap Maruska Lima e o Presidente da Novacap Nílson Martorelli”.
Afrânio Roberto de Souza Filho: Era o operador financeiro do então vice-governador Tadeu Fillipelli, “tendo recebido da Construtora Andrade Gutierrez dezenove pagamentos de propina, no percentual de 4% de cada medição, o que revela indícios de que tenha cometido os delitos de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa”.
Condução coercitiva:
José Wellington Medeiros de Araújo; desembargador do TJDFT que foi aposentado compulsoriamente por suposto envolvimento com grilagem de terra no DF
Luiz Carlos Barreto de Oliveira Alcoforado; advogado de Agnelo Queiroz
Alberto Nolli Teixeira; diretor de construção da Via Engenharia
Panatenaico
O nome da operação é uma referência ao Stadium Panatenaico, sede dos jogos panatenaicos, competições realizadas na Grécia Antiga que foram anteriores aos jogos olímpicos. A história desta arena utilizada para a prática de esportes pelos helênicos, tida como uma das mais antigas do mundo, remonta à época clássica, quando estádio ainda tinha assentos de madeira. A construção foi toda remodelada em mármore, por Arconte Licurgo, no ano 329 a.C. e foi ampliado e renovado por Herodes Ático, no ano 140 d.C., com uma capacidade de 50 mil assentos. Os restos da antiga estrutura foram escavados e restaurados, com fundos proporcionados para o renascimento dos Jogos Olímpicos. O estádio foi renovado pela segunda vez em 1895 para os Jogos Olímpicos de 1896.