Bruna Sensêve
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Os olhos profundos, os ralos cabelos loiros e os braços frágeis denunciam a doença que abate Letícia (nome fictício) há mais de quatro anos. O inimigo de efeito devastador sobre seu corpo é o câncer linfático, que começou a ser diagnosticado ao mesmo tempo em que descobriu a gravidez, aos 19 anos. Com a doença vieram os problemas, inclusive financeiros.
Por falta de conhecimento, muitas pessoas que têm câncer, assim como Letícia, deixam de utilizar benefícios que podem amenizar a luta pelo controle da doença. Entre eles estão o saque do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e do PIS/Pasep, auxílio doença e até, dependendo da gravidade da doença, aposentadoria por invalidez, quitação de imóvel e isenção do Imposto de Renda na aposentadoria, entre outros (veja a página ao lado).
A disponibilidade dos benefícios financeiros para pacientes em tratamento é essencial para toda a estabilidade da família, afirma a assistente social do Hospital da Criança do Distrito Federal, Fátima Porto Correa. “Na verdade, o benefício da Previdência, por exemplo, é imprescindível para muitos pacientes, especialmente aqueles extremamente carentes e em situação socioeconômica muito difícil”, explica. Ela avalia que o agravante está principalmente na perda da fonte de renda, tanto para o paciente em tratamento quanto para o acompanhante.
Fátima convive diariamente com a realidade dos pacientes internados no hospital. Como são menores de idade, precisam de acompanhamento constante e a perda da renda familiar atinge o acompanhante. “Muitas mães que ajudavam na renda familiar perdem o vínculo empregatício porque não conseguem mais manter a assiduidade e a dedicação ao emprego. E esse benefício seria mais uma ajuda para viabilizar o tratamento”, detalha. No caso, o benefício pode ser o auxílio-doença, destinado àqueles que se tornam incapazes para o trabalho em virtude de doença por mais de 15 dias consecutivos. Há também o amparo assistencial ao idoso e ao deficiente, que também pode ser concedido para crianças e adolescentes.
Informação
Muitos só se informam quando a doença agrava e nem sempre o caminho é fácil para a obtenção de benefícios. É preciso reunir uma série de documentos e laudos médicos, mas vale a pena insistir.
Foi o que ocorreu com Letícia. Quando a situação se agravou, ela foi em busca de mais informações sobre sua situação e seus direitos. A jovem conta ter tido muitas dificuldades, principalmente pela falta de boa vontade de alguns médicos. “Para conseguir a papelada para levar ao INSS é a maior dificuldade. Um médico disse que não ia ficar assinando papel à toa, que estava gastando o tempo dele. Até hoje, se eu pedir um relatório, ele reclama. Diz que não tem nada a ver com isso, que não tem de assinar papéis para apresentar em órgãos que não têm nada a ver com o hospital”, afirma a paciente.
Um dos problemas para que a informação chegue aos pacientes é o mesmo que atinge toda a rede pública de saúde: a falta de pessoal. O ideal seria conseguir atender todos os pacientes na primeira ou segunda semana de tratamento, mas, para isso, seria necessário o aumento do quadro de profissionais especialmente do serviço social nos hospitais.
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