Menu
Brasília

Alunos do RenovaDF reformam espaço do BPCães

Dos 1,5 mil alunos inscritos, 304 estão em situação de rua — o maior número da história do programa

Redação Jornal de Brasília

10/07/2024 19h36

dentro 1 9

O atual ciclo do RenovaDF, iniciado em junho, oferece capacitação profissional e abre caminhos no mercado de trabalho para 1,5 mil alunos. Desses, 304 estão em situação de rua — o maior número da história do programa | Fotos: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília

Alunos do atual ciclo do RenovaDF estão trabalhando na reforma do espaço do Batalhão de Policiamento com Cães (BPCães), da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). Iniciado em junho, o ciclo, que conta com 1,5 mil alunos, deve ficar os três meses de duração do programa, com carga total de 240 horas, sendo quatro horas por dia, ocupado com a atividade.

Do total de inscritos, 304 estão em situação de rua — o maior número da história do programa. Paralelamente às aulas, os alunos aplicam os conhecimentos práticos na manutenção e reforma de equipamentos públicos do DF. Desde 2021, 2,3 mil foram recuperados.

Subcomandante do batalhão, o capitão Yuri Dezen comenta o apoio recebido. “O batalhão tem mais de 40 anos e as reformas, no geral, foram feitas pelos próprios policiais da unidade. Qualquer coisa que venha a dar uma reforma, ajudar a melhorar o batalhão, para a gente, é muito importante. Eles estão sendo muito bem-vindos, estão ajudando a gente, então, o que a gente puder ajudar eles também, a gente vai fazer.”

Parte do programa, Marcelo Machado comemorava durante o serviço que, no fim do expediente, iria para a própria casa, que conseguiu alugar há apenas um dia. “Essa alegria que eu estou de ontem para hoje você não tem noção. Inexplicável.” Sete meses atrás, ele chegou do Rio de Janeiro “com uma bermuda, uma camisa e um tênis”.

Atendido em um Centro Pop, recebeu o tratamento de um glaucoma, deu entrada no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e se inscreveu no RenovaDF, onde realiza um curso de Auxiliar de Manutenção da Construção Civil e recebe a bolsa de um salário mínimo. Com tudo isso, Marcelo se sente pronto para ir atrás do que veio buscar na capital federal: retomar o contato com a filha. “Não quis procurar antes porque eu estava em situação de vulnerabilidade. Quis me reestruturar primeiro para voltar a procurar ela.”

Conquistar uma casa para chamar de sua é também o desejo de Bruno Almeida. “A minha vida estava difícil, até hoje ainda estou nas ruas. Agora que conheci o Renova, está melhor para mim, graças a Deus. Estou com as oportunidades e estou abraçando elas. Quero sair das ruas”, afirma. Desde os 11 anos, Bruno vive em situação de vulnerabilidade. Hoje, aos 41, além do RenovaDF, está inscrito na Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF (Codhab) e aguarda ser contemplado para ganhar um lar para morar com seu único companheiro, o cachorro Robert: “O que eu mais quero da minha vida mesmo é entrar nesse apartamento. Sossegar, ficar tranquilo, poder deitar despreocupado”.

Participação no RenovaDF ajuda a reestruturar a vida de Marcelo Machado, que conseguiu alugar uma casa: “Essa alegria que eu estou de ontem para hoje você não tem noção”

A situação não é isolada. É o caso também de Bruno Silva. Ele não esconde o passado: foi parar na rua por problemas com drogas. Mas projeta um futuro melhor. “Estou em uma casa de acolhimento, mas isso é só um período, porque eu já estou me estabilizando para caçar um rumo, alugar uma casa, viver minha vida em paz.” E, quem sabe, realizar o sonho de virar promotor de Justiça. “O Renova é um primeiro passo”, diz, entusiasmado.

Oportunidade

A aluna Suerlane Miquele fala de sua maior motivação: “Tenho três filhos pequenos que dependem de mim. Sou mãe solo e o meu intuito de estar aqui hoje é lutar por eles”

Por falar em sonho, o de Hellen Gabrielle é cursar Arquitetura na Universidade de Brasília (UnB). Algo que poderia até ser simples. Não fossem as barreiras sociais impostas a uma mulher trans. “O mercado de trabalho oferece várias oportunidades. Porém, nós, mulheres trans, hoje em dia, estamos tentando nos posicionar, ocupar os espaços, mas ainda é muito difícil”, aponta.

A capacitação oferecida pelo RenovaDF “torna mais fácil”, segundo ela. “O Renova tem um projeto de inclusão social, porque tira as pessoas da rua, pessoas que não têm oportunidade, mães que estão em casa e, às vezes, não têm dinheiro para comprar comida para os filhos”, cita a jovem, que caminha para concluir o ensino médio na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Uma dessas mães a receber uma oportunidade no programa é Suerlane Miquele. “Tenho três filhos pequenos que dependem de mim. Sou mãe solo e o meu intuito de estar aqui hoje é lutar por eles”, conta. “Eu sempre fui uma pessoa ativa. As portas que vi abertas para mim eu entrei”, completa. Com o RenovaDF, ela espera “encontrar uma porta maior”, no próprio ramo da construção civil.

Trabalho

“Nós, mulheres trans, hoje em dia, estamos tentando nos posicionar, ocupar os espaços, mas ainda é muito difícil”, diz Hellen Gabrielle, acrescentando que com a oportunidade do RenovaDF “tudo se torna mais fácil”

“Ninguém acreditava em mim, o Renova me trouxe uma oportunidade de emprego. E, com esse emprego que eu tenho, eu consigo ajudar centenas de pessoas”, diz o ex-aluno Itamar Nunes, que hoje direciona as pessoas em situação de vulnerabilidade aos programas deste GDF

Muitas vezes, o elo com o RenovaDF não se encerra ao fim do curso. Ex-aluno do programa, Itamar Nunes hoje é técnico de Introdução ao Mercado de Trabalho da Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Renda (Sedet). A história, porém, começou de forma trágica. Ele lembra que veio do Amazonas com um câncer grave para, nas próprias palavras, “morrer com qualidade” na capital federal. Mas o tratamento foi bem-sucedido e sua vida mudou.

“No final do tratamento, eu estava em um albergue e eu tive a visita da secretária [de Desenvolvimento Social] que, na época, era a Mayara [Noronha Rocha], esposa do governador. E ela chegou lá e falou assim: ‘Seu Itamar, o que o senhor está precisando?’. Aí eu falei: ‘Eu estou melhorando e, quando eu melhorar, gostaria de receber um presente. Eu gostaria de trabalhar’. Logo em seguida, surgiu o Renova. Eu procurei a secretaria e falei que precisávamos pegar pessoas em situação de rua e dar oportunidade, porque muitos, como eu, precisavam de uma oportunidade. E, de lá para cá, mais de mil pessoas já foram atendidas pelo Renova e umas mudaram de vida. Eu sozinho não sou exemplo. São várias pessoas que mudaram de vida.”

Agora, no cargo que conquistou, Itamar atua como intermediador e direciona as pessoas em situação de vulnerabilidade aos programas deste Governo do Distrito Federal (GDF) voltados a cada uma delas. “Hoje, o meu trabalho é o melhor lugar do mundo para mim, porque eu conheço toda a dor deles, todo o sofrimento, e eu faço esse acompanhamento dentro da secretaria”, define. “Estou há quase três anos fazendo esse trabalho, de acompanhamento dos meus irmãos. A minha vida mudou. Eu estava na rua e hoje eu tenho até casa. Ninguém acreditava em mim, o Renova me trouxe uma oportunidade de emprego. E, com esse emprego que eu tenho, eu consigo ajudar centenas de pessoas”, conclui, orgulhoso.

*Com informações de Fernando Jordão, da Agência Brasília

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado