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Entrevista: Bodega Garzón, a vinícola mais premiada da América do Sul

Coluna traz entrevista com o enólogo Germán Bruzzone. Este é o primeiro de dois textos sobre a Bodega Garzón

Por Cynthia Malacarne 04/12/2023 11h10
Foto: Bodega Garzón/Divulgação

A Bodega Garzón, localizada no departamento de Maldonado, a poucos quilômetros do exclusivo balneário José Ignacio, no Uruguai, foi quem colocou este país na rota do vinho. Existe um antes e depois da Garzón na história do vinho uruguaio. Idealizada pelos seus proprietários Alejandro Bulgheroni e esposa Bettina, o projeto é hoje o maior de vinho premium nas terras uruguaias, com a colaboração de Alberto Antonini, reconhecido consultor internacional de vinhos.

Alejandro Bulgheroni e Bettina. Foto: Bodega Garzón/Divulgação

 

Além da produção de vinhos, a vinícola possui roteiro de enoturismo e gastronomia, esta última liderada pelo renomado Chef Francis Malmman e Chef Nico Acosta.

Garzón coleciona prêmios, considerada a melhor vinícola do Novo Mundo na edição 2018 dos Wine Star Awards, organizado pela reconhecida revista Wine Enthusiast. O vinho Balasto 2015 foi incluído no Top 100 da Wine & Spirits, sendo a primeira vez que um vinho uruguaio entra nessa lista. Além disso, recentemente, o seu CEO, Christian Wylie, foi eleito pela revista Wine Enthusiast como “Wine Executive of the Year” (executivo do vinho do ano).

Na semana passada, tive o privilégio de viver a experiência Garzón, e como tenho muito a compartilhar, resolvi dividir o conteúdo em duas partes. Nesta primeira, vou falar sobre o bate-papo que tive com o enólogo residente Germán Bruzzone. Na próxima publicação, falarei um pouco dos vinhos e da experiência de enoturismo — atualmente, o processo de produção e vinificação, vinhedo e adega está a cargo do enólogo residente Germán Bruzzone e do enólogo consultor Alberto Antonini.

Germán Bruzzone à esquerda, e Alberto Antonini à direita. Foto: Bodega Garzón/Divulgação

Germán trabalha na Garzón desde 2009 e, há pouco mais de um ano, está como diretor de produção e vinificação, liderando uma equipe com mais de 100 pessoas.

Foto: Bodega Garzón/Divulgação

Vinhos e Vivências: Quantos hectares possui a Bodega Garzón e como são cultivados? Quais são as variedade de uvas plantadas?
Germán Bruzzone: A Garzón é a primeira vinícola totalmente sustentável na América Latina, única no mundo com Certificação LEED, com métodos de produção inovadores, um ícone de vanguarda na região. Possui flora e fauna preservadas. Antes das uvas, não havia nenhuma cultura plantada, o solo era virgem antes do vinhedo. Todas as plantações feitas seguiram a topologia do solo, por isso, o vinhedo, com 250 hecatares, é dividido em mais de 1.200 parcelas, cada uma plantada com uma exposição solar distinta, formando um belissimo mosaico.

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Essas parcelas representam muito trabalho, mas dentro dessa complexidade, há também vantagens que se refletem nos vinhos. Aqui há um quadro de Tannat ao lado de outro da mesma variedade, mas pelas características do solo, exposição solar, e um monte de mistério, como comento com Alberto, a uva é diferente e isso se reflete na complexidade do vinho e é o que mais nos interessa. Nenhuma parcela é igual a outra, embora seja da mesma casta. Por exemplo, fazemos um vinho Tannat Reserva que é um blend de Tannats porque utilizamos uvas do sul, norte, leste e oeste, do alto e baixo, que se mesclam e fazem este vinho.

Os lagos que possuímos (ao todo são nove) também desempenham um papel fundamental no vinhedo, pois ajudam na irrigação. Apesar do Uruguai ter um regime hidrico alto, como 1.200 a 1.400 milimetros por ano. Mesmo assim, nossos vinhedos precisam de irrigação por conta dos solos arenoso e pedregoso que não retém água.

Outro fator importante a destacar é que estamos frente ao mar, recebendo a brisa marítima, e isso influencia bastante nas características das uvas. Em Garzón a amplitude térmica é elevada, temos dias quentes e noites frias, o que permite às nossas variedades o desenvolvimento da fruta, compostos fenólicos, durante o dia, e acidez e frescor à noite.

Quanto às castas cultivamos: Sauvignon Blanc, Alvarinho, Viognier, Pinot Gris, Chardonnay, Cabernet Franc, Tannat, Merlot, Petit Verdot, Marselan, Cabernet Sauvignon e Petit Manseng.

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Foto: Bodega Garzón/Divulgação

Quais são as principais características e estilos de sua vinificação e vinhos?
Em Garzón buscamos a mínima intervenção possível, tanto no vinhedo quanto na adega. Para nós, é importante que se expresse o vinho, de acordo com sua fruta, solo e clima.

Dependendo do vinho utilizados determinadas técnicas. No caso da variedade Tannat, por exemplo, a maceração é muito gentil, cuidado com os taninos, boa regulagem do tema da extração e oxigênio. No caso da Cabernt Franc, a maceração deve ser curta, também cuidado com o oxigênio. Durante a fermentação dos vinhos, busco dar ênfase nas texturas, frutas, acidez e frescor. Tudo deve estar em perfeito equilíbrio.

Foto: Bodega Garzón/Divulgação

Desde 2009, você trabalha com o renomado enólogo consultor Alberto Antonini. Como ocorre essa sinergia e troca de experiências?
Alberto Antonini é consultor em várias adegas pelo mundo e sempre diz que confia muito no enólogo residente do lugar, que conhece definitivamente o território onde está. Aprendi muito com Alberto e também colaboro bastante ao mostrar-lhe as características específicas do lugar.

O vinho ícone da Garzón é o Balasto. O que significa esse nome e como é elaborado?

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Balasto é nosso tipo de solo granítico meteorizado, com boa drenagem e mineralidade, ideal para proporcionar complexidade, energia e vibrância ao vinho ícone.

É elaborado com 42% de Tannat, 39% Cabernet Franc e 19% de Petit Verdot. Decidimos por esse blend porque a Tannat honra o projeto Garzón e faz sentido tê-la como principal. A Cabernet Franc é a segunda variedade em importância, sempre entrega bastante frescor e complexidades no aroma que nos interessa muito, e a terceira casta é a Petit Verdot, que além de entregar muita estrutura, tem notas muito interessantes que fazem deste vinho extremamente complexo.

O resultado é um vinho com muita estrutura, frescor e vibração. Representa muito bem o que é o terroir de Garzón e a filosofia atrás da elaboração e estilo. É o vinho mais importante da adega, a primeira safra foi 2015 e entrou para o Top 100 da Wine & Spirits. O Balasto 2015 foi incluído nesta prestigiosa lista, com a primeira safra do nosso vinho emblemático, apresentada na exclusiva Place de Bordeaux.

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Foto: Bodega Garzón/Divulgação

Poucas pessoas no Brasil conhecem os espumantes da Garzón. Conte-nos um pouco sobre essa pequena produção.

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Em Garzón produzimos dois tipos de espumantes: um branco Extra Brut, 100% Chardonnay e um rosé Brut Nature feito com a casta Pinot Noir. São elaboradas apenas 20 mil garrafas de cada, e toda a variedade Chardonnay que temos plantada vai para a elaboração do espumante branco.

Para a produção do espumante rosé temos uma parcela específica de Pinot Noir. Os vinhos espumantes são difíceis de elaborar porque o vinho base precisa ser perfeito: ser neutro, ter boa acidez e muito frescor. As uvas são colhidas manualmente. É uma única oportunidade.

Agradeço ao enólogo Germán pela oportunidade de entrevistá-lo. Aproveito para informar aos meus leitores que, em Brasília, encontramos os vinhos da Garzón nas seguintes lojas de vinhos: Rota do Vinho, na 409 Sul; World Wine, no Parkshopping; e Super Adega.

Boa degustação a todos!






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