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Somos todos atores

O ser humano é como um iceberg, em que 3/5 dele permanecem submersos, e o que vemos é insuficiente para mostrar seu real

Por Theófilo Silva 22/06/2023 6h01
Shakespeare para todos Willian Shakespeare

Shakespeare disse pela boca de Jacques, em sua peça Como Gostais, que “O mundo inteiro é um palco e todos nós somos atores”. Essa sentença é bem mais longa e encerra uma série de discussões. Quero me deter apenas em um aspecto dela, que é o de apontar um caráter teatral que alguns indivíduos carregam e demonstram mais que outros, mesmo sem nunca terem atuado, ou sequer terem pensado em atuar. São aspectos que fogem ao seu próprio controle e o tornam “uma figura” interessante, até mesmo sem que eles saibam, muito embora algum se achem uma pessoa “diferente”, “engraçada”, “louca”. Gosto muito de chamar alguns amigos de loucos.

Há coisas que só um bom observador é capaz de enxergar. O ser humano é como um iceberg – Ernest Hemingway pensava assim – em que, uns três quintos dele permanecem submersos, e o que vemos é insuficiente para mostrar seu formato real. Como ele é realmente. Somente o observador sagaz, e aí entra a capacidade do escritor, é capaz de apontar, desvendar, ou mesmo adivinhar uma pequena parte do que está escondido.

Há muito tempo que enxergo – ou no mínimo, comparo – meus amigos, e figuras públicas que não conheço pessoalmente, a personagens de Shakespeare. A maneira como eles se comportam, o temperamento, o caráter, a personalidade, a estética, a estatura, todo e qualquer sinal que me desperte curiosidade, eu procuro identificar, e comparar com um dos muitos dramatis personae das peças do bardo.

Gosto de mexer com a curiosidade das pessoas, de sacudi-las. Uma das formas é mexer em seus nomes, fazendo trocadilhos, usando diminutivos, dando subtítulos, exaltando-os. Se seus prenomes são de grandes personagens da história, ou da literatura, a coisa fica ainda mais criativa e curiosa. Tento surpreendê-los, muita embora nem sempre seja compreendido. Como se trata de algo, de certa forma, inédito, alguns não entendem meu objetivo. Mas o fato de tratá-los, até mesmo de cumprimentá-los de maneira não usual, costuma balançá-los.

Quando fundei a Sociedade Shakespeare, as primeiras ações que realizei foram leituras de cenas das peças, enfocando sempre um tema que era debatido depois: o orgulho, ciúme, traição, namoro, casamento. Os grupos giravam em torno de doze pessoas, homens e mulheres de idades variadas. Lá pelo terceiro encontro, passei a dar-lhes nomes shakespearianos. Pois já tinha percepção suficiente para enxergar nelas características de personagens do bardo. Era uma brincadeira interessante porque as deixava excitadas e muito curiosas, principalmente sobre como eu as enxergava.

Mas nem sempre dava nome a todos do grupo, porque alguns se intimidavam, passavam a impressão de terem medo de se verem, de encontrarem um espelho. Assim, eu não avançava, deixava todos à vontade, e só fazia se a pessoa permitisse, ou até mesmo fizesse questão de que eu a nominasse. Na verdade, meu propósito era enriquecê-la, exaltá-la, festejá-la, dá-lhe uma perspectiva nova, uma dimensão diferente de si mesma, da que estava acostumada a ter. A maioria ficava encantada com a abordagem.

Nossas reuniões eram regadas a vinho, com um fundo musical de música barroca, num clima de “petit comité”. Cada tema lido era discutido em seguida. As reações eram diversas, muito embora o encantamento com o conteúdo das peças superasse qualquer outra coisa. A sensação que predominava era de que Shakespeare estava nos lendo, e não o contrário. Essa observação é meio óbvia, mas quando se trata de Shakespeare, não é exagero dizer que sua visão aguda atinge pontos que ninguém vê, mas que ao ser descoberto, detectado, mexe profundamente com todos.

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Assim, a um amigo solteirão e “bom vivant” dei o nome de conde de Roussilom, personagem da peça “Tudo Bem Quando Acaba Bem”; outra grande amiga, por ser bastante sedutora, foi chamada de Cleópatra; um amigo refinado, que eu chamo de lord, virou conde de March; outra, muito pura, virou Miranda, a adolescente de “A Tempestade”, e assim continuei. Infelizmente, tem a turma do mal: existe um aproveitador que eu chamo de Iago, o cruel destruidor de “Othelo”; um político farsante e corrupto eu chamo de Edmundo, o perverso de “Rei Lear”.  Os malvados não têm conhecimento dos nomes que dei a eles.

Shakespeare continua a sentença que dá nome a este ensaio, dizendo que “Todos nós somos atores”. Sim, estamos sempre representando. E a fuga da mesmice passa pela constante reinvenção de nós mesmos. E como disse Hamlet “A função da arte foi É oferecer um espelho a natureza”. Com minhas brincadeiras ofereço um espelho a todos!






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