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Filhos não vêm com manual de instrução

Essa frase, apesar de clichê, descreve precisamente as dificuldades dos pais nos cuidados e na educação de seus filhos

Filhos não vêm com manual de instrução

Por Patrícia Demoly e Carlos Augusto de Medeiros

Sempre que compramos um aparelho, ele vem com um manual de instruções em forma de regras, com diversas informações técnicas que nos ajudam a aprendermos a operá-los. O que é uma bula senão um manual de instruções sobre como consumir o remédio?

Existem regras para tudo. Como se vestir, como se portar, o que é apropriado de se fazer ou não em determinados contextos, etc. Em um cinema, por exemplo, não podemos conversar. Usar biquíni para ir a um clube é comum, mas não para ir a um baile de formatura. Ao assistir uma banca de conclusão de curso de mestrado, geralmente a audiência não pode se pronunciar. Ao nos depararmos com um sinal de trânsito, sabemos que o verde é para seguir e que o vermelho indica pare.

Em uma sociedade com tantas regras, nascem os filhos, sem manual de instrução e sem um preparo prévio dos pais para lidarem com eles; tão ingênuos, inseguros e necessitando tanto de ajuda e cuidados. O único curso que os pais participam enfoca cuidados com alimentação, saúde e higiene. Criar um filho envolve muito mais do que cuidar de sua saúde física (dar banho e alimentação), mas também um cuidado emocional, afetivo, ensino de valores e de como se portar na sociedade.

Uma das formas mais comuns de se educar filhos é reproduzir os modelos dos pais advindos da própria criação. Para tal, tendemos a reproduzir práticas que consideramos apropriadas e a eliminar as que consideramos inapropriadas. Repetir modelos de criação dos pais/avós é a estratégia mais comum, e muitos pais acabam reproduzindo, até sem perceber, atitudes que desaprovavam de seus pais, mas que acaba sendo a única forma que sabem lidar para resolver problemas.

Diante de dificuldades de conter comportamentos ditos inadequados de seus filhos, os pais acabam utilizando ameaças que muitas vezes não cumprem e punição física. A punição física pode até suprimir o comportamento momentaneamente, mas não o resolve de modo definitivo. Ainda, o uso da punição produz sérios efeitos sobre os comportamentos da criança, como o uso de mentiras ou omissões para evitar broncas, surras ou castigos. Outro efeito comum é o filho passar a ter medo dos pais ao invés de respeito. O medo faz com que a relação entre pais e filhos fique distante. Afinal, tendemos a evitar o convívio com aquilo que nos ameaça.

Os filhos aprendem que muitas das ameaças não serão cumpridas e passam a não acreditar mais na palavra dos pais. Essa perda de credibilidade não só reduz a eficácia da ameaça como forma de controle do comportamento, como reduz a confiança dos filhos naquilo que os pais dizem. A perda de credibilidade pode ser particularmente prejudicial, uma vez que os conselhos dos pais costumam conflitar com os conselhos de outras pessoas, como dos amigos, por exemplo.

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Outra forma de aprender a criar filhos é observando outros pais, pedindo ajuda a pessoas mais experientes. Outro modo comum de instruir-se é a leitura de livros sobre a criação dos filhos. Dentre os vários modismos, a bola da vez é a disciplina positiva. Todavia, raramente é fácil colocar em prática as recomendações dos outros ou dos manuais, uma vez que implicam mudanças em padrões comportamentais bem estabelecidos. Ademais, muitas vezes, as recomendações não se adequam à realidade da família (filhos criados apenas pela mãe ou com forte presença dos avós, por exemplo). É importante lembrar que não necessariamente o que serve para uma pessoa valerá para a outra e, nesse caso, não necessariamente uma mesma prática parental será eficaz em famílias de diferentes contextos.

É claro que a melhor ajuda, nesse caso, é a profissional, como a de um(a) psicólogo(a) que trabalhe com orientação a pais. Talvez esse serviço nem seja tão conhecido. Geralmente, os pais procuram mais a psicoterapia infantil, para que os comportamentos dos filhos se adequem às demandas dos pais. Muitos pais têm a esperança de que, como mágica, tudo será resolvido. Poucos pais têm a verdadeira percepção de que para mudar o comportamento dos filhos, em grande parte dos casos, é preciso realmente mudar os seus próprios comportamentos. Perceber isso não é fácil e mudar o próprio comportamento é realmente uma árdua tarefa. Afinal, responsabilizar a escola, o(a)s professore(a)s e o(a)s psicólogo(a)s é muito mais cômodo. Porém, observar a mudança no comportamento dos filhos a partir da mudança no próprio comportamento é particularmente gratificante.

Muitos pais justificam sua inatividade com frase do tipo “Meu filho é igual ao pai, não vai mudar”. Rótulos como déficits de atenção e transtorno opositor/desafiador também servem para responsabilizar a criança ou a sua doença pelos comportamentos socialmente inadequados. Esse tipo de explicação é pouco útil para a mudança do comportamento. O papel de psicólogo(a)s que orientam pais ou terapeutas infantis é identificar aspectos do ambiente que estabelecem e mantém os comportamentos socialmente inadequados para posterior intervenção sobre eles.

Embora não exista um manual de instruções sobre como criar filhos e como lidar com comportamentos que os pais julgam inadequados, há a possibilidade de uma ajuda profissional qualificada que pode contribuir muito nesse processo. Afinal, o quanto as famílias seriam mais felizes com pais atuando como protagonistas no desenvolvimento emocional e afetivo de seus filhos? Os pais geralmente fazem o melhor que podem, mas podem fazer melhor ainda com ajuda profissional e se saírem da zona de conforto!

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