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A Janela

Uma tarde, após a missa, ele, timidamente propôs que ficasse um pouco a conversar no banco da praça. Ela concordou. O namoro prosseguia

Fotos: Andreas SOLARO/AFP

Lúcio tinha 11 anos de existência. Loiro, olhos castanhos, corpo fino, atlético, leptossômico, e nunca conhecera o amor. Gabriela, uma linda menina de lábios de mucosa suave, bem feitos anatomicamente, com as comissuras dignas de serem beijadas, suavemente. Olhos negros, amendoados e um ar de candura, vestida sempre de um modo que suas pernas se ocultavam por baixo de um vestido de renda branco artesanal. Certa vez li que mostrar as pernas na época do Império era sinal de mulheres endiabradas pelo desejo perverso do Diabo.

A maioria dos encontros era nas missas de domingo à tarde. Olhares de soslaio, sorrisos raros, olhos nos olhos, por bons segundos revelando uma intimidade á distância, uma cumplicidade delicada, uma vez por semana.  O pequeno homem morava na rua do Desespero, em  frente à casa dela. A tímida Gabriela, meses depois começou a passar sempre duas vezes por semana pela frente da casa de Lúcio. Carregava um caderno azul com um carinho muito especial. O jovem fazia questão de ficar na veneziana para vê-la passar. Os olhares denunciavam a singeleza de um afeto inocente, puro, mas escondendo desejos passionais. A janela passou a ser o  tempo de encontro de um amor que fecundava, germinava. O amor nasce colorido de fantasias, imaginações prestes a se realizarem. A paixão é uma construção necessariamente ilusória, alucinada, inicialmente não podendo ser quebrada, fraturada pela realidade.  

Em suas elocubrações diárias, e fascinado pela menina do vestido de renda, Lúcio começou a escrever cartas que eram entregues quando Gabriela passava para ter aula de piano. Na volta, ela lhe ofertava a resposta. Dias, semanas, meses se transformaram no namoro romântico na década de 1958. As cartas continham poesias como forma de denunciarem a linguagem do elo amoroso.

A janela, a veneziana da casa de Lúcio e logo a janela da residência de Gabriela compunham palco de encontros, ou de passagens, pois nunca houve conversa verbal, os dois nunca trocaram palavras até então. O namoro era por missivas. Gonçalo M. Tavares, um jovem escritor angolano nascido em 1970, que me inspirou escrever este pequeno conto, escreve em seu livro “Um Homem: Klaus Klump” a seguinte passagem: “as janelas existem porque os amantes existem, e porque os mesmos ainda não estão em casa.”

Uma tarde, após a missa, ele, timidamente propôs que ficasse um pouco a conversar no banco da praça. Ela concordou. O namoro prosseguia.

Encontros, olhares, medo, conversas banais. Pegar na mão, nunca! Era cedo ainda para que o corpo completasse o desejo da alma. Num momento de coragem, Lúcio se atreve e pede um retrato à Gabriela. Ela promete trazer na próxima semana. Lúcio e Gabriela depois que passaram a se ver na praça após a missa dos domingos, o namoro continuou além das cartas e da janela.

Desse namoro só ficou um retrato, a lembrança da igreja, da praça, e da janela. Anos depois, a vida (?) se encarregou do futuro: Gabriela casou com Arthur e Lúcio faleceu de tuberculose aos 30 anos.

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Uma vez Manuel Bandeira compôs esse belo poema:

Ponha a mão na minha testa

“Não te doas do meu silêncio

Estou cansado de todas as palavras.

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Não sabes que te amo?

Pousa a mão na minha testa:

Captarás numa palpitação inefável

O sentido da única palavra essencial

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– Amor.

Carlos de Almeida Vieira Médico, Psicanalista. Membro Titular da Sociedade de Psicanálise  de Brasília, Analista Didata; Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; Membro da Federação Brasileira de Psicanálise e Associação Internacional de Psicanálise (Londres).

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