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Redes sociais e a inclusão de pessoas com deficiência

Jovens PCDs aproveitam o espaço nas redes para disseminar seus trabalhos e derrubar por terra o discurso capacitista

Por Danilo Strano 04/07/2022 12h43
Conhecida como Pequena Lo, a blogueira desabafou com seus seguidores as dificuldades e constrangimentos sofridos no festival Foto: Divulgação

A existência de pessoas com deficiência (PCD*) tem registro nas primeiras civilizações. Cidadãos com impedimentos físicos, mentais, intelectuais ou sensoriais recebem, historicamente, um tratamento sempre à margem da sociedade. O sacrifício de crianças com deficiência, por exemplo, era comum em determinadas civilizações.

Na Grécia antiga, a sociedade tinha a cultura de supervalorizar o corpo humano, sendo intolerante com qualquer tipo de característica física que não enquadrasse aos padrões gregos. Os homens deveriam ser capazes de participar de guerras e batalhas, enquanto as mulheres tinham de gerar crianças saudáveis. No nascimento, se algum atributo físico fosse considerado deformidade ou anormalidade, o bebê era sacrificado.

Também na civilização da Roma antiga, a intolerância com PCDs era facilmente constatada. A Lei das Doze Tábuas, que constituiu a origem do direito romano, determinava o sacrifício de bebês que nasciam com má formação física.

Caminhando mais de dois milênios na história, recentemente, na década de 1940, um dos homens mais poderosos do mundo, o então presidente Francês Charles de Gaulle, era conhecido pelo amor incondicional à filha, Anne de Gaulle, que era uma jovem com síndrome de down. Apesar de todo poder, Charles optou por evitar integrar Anne na sociedade, entendendo que seria melhor manter ela somente com o contato familiar para sua própria proteção.

O movimento pelos direitos das PCDs, na década de 1980, introduziu um termo que enquadrou esse processo histórico de subestimação que desincentiva a participação na sociedade de pessoas com deficiência: capacitismo. A expressão resume qualquer tipo de atitude que discrimine ou demonstre preconceito social contra pessoas com deficiência.

Em um mercado de trabalho que historicamente segrega pessoas com qualquer tipo de deficiência, as redes sociais aparecem como um local mais democrático, onde os PCDs não dependem da aprovação de um chefe para produzir seus conteúdos e desenvolver suas aptidões. Como visto, existe um preconceito histórico que os coloca como incapazes de realizar atividades cotidianas e principalmente sociais. Os jovens criadores de conteúdo com deficiência estão mostrando na prática que esse discurso capacitista está com os dias contados. Aqui vão três nomes que se destacam como criadores de conteúdo:

Pequena Lo

Fenômeno no TikTok, a humorista Lorrane Silva, de 25 anos, tem displasia óssea. Mais conhecida como Pequena Lo, a mineira de Araxá-MG reúne mais de 10 milhões de pessoas em suas redes sociais e é presença garantida nas principais festas do país.

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pequena lo comenta polêmica com azul linhas aéreas
Pequena Lo. Foto: Divulgação

Paola Antonini

Autora do livro “Perdi uma parte de mim e renasci”, a modelo e influenciadora digital mineira de 27 anos, que teve uma perna amputada após um acidente conta com mais de quatro milhões de seguidores.

Paola Antonini. Foto: Reprodução/Instagram

Downlícia

Gabriel Bernardes é um jovem de 25 anos com síndrome de down. O carioca é criador do canal Downlícia. Somadas, as contas de Gabriel no YouTube, TikTok, Instagram e Linkedin têm mais de 1,4 milhão de pessoas acompanhando tudo que o chef especializado em brigadeiros gourmet posta.

Downlícia. Foto: Divulgação

As redes sociais estão de fato possibilitando uma mudança na relação de pessoas com deficiência e a sociedade. Esses jovens são responsáveis pela reinvenção do futuro até então determinado para eles. Como os exemplos citados, muitos se somam e estão conquistando espaços no mercado de trabalho, mas a consequência disso é revolucionário para a história, esses criadores de conteúdo estão conseguindo se incluir socialmente.

Sem capacitismo, mas com admiração e respeito, a população começa a entender que uma pessoa com deficiência tem potencial para integrar vários espaços sociais. Seja fazendo humor, cozinhando ou modelando, as portas estão sendo escancaradas pelos próprios PCDs, no que certamente — e felizmente — é um caminho sem volta. Relatos de preconceito são recorrentes, porém, o que esses criadores de conteúdo estão conseguindo com as redes sociais são conquistas que ficarão para as próximas gerações.

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