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Pelé tricolor

Jovens torcedores desconhecem que o “Deus do Estádio” vestiu a camisa de três clubes cariocas

Por Gustavo Mariani 31/10/2023 10h50

São raros, no futebol brasileiro, os atletas que vestiram as jaquetas dos principais times de seu estado. Como, sempre, sobra uma história para se contar sobre o Pelé, estas é uma delas, que jogou por Vasco da Gama, Fluminense e Flamengo, em prélios amistosos

Pelé esteve vascaíno, aos 16 anos, no início da carreira, por três jogos, no Maracanã, em junho de 1957, quando os cruzmaltinos se uniram aos santistas e formaram um combinado que disputou a Taça Morumbi. O ainda garoto Pelé marcou três gols, nos 6 x 1 sobre o português Belenenses, no dia 19; um contra o então iugoslavo Dínamo Zagreb, quatro dias depois, e outro, em cima do Flamengo, em 29.06.57.

Os jogos tricolor e rubro-negro do “Rei” é o que vamos conferir agora.

Quando cobri a Copa do Mundo-1978, na Argentina, batia muito papos com o roupeiro Ximbica, enquanto ele tirava o barro das chuteiras dos jogadores, após os treinos, na Villa Marista, em Mar del Plata.

Num daqueles finais de tarde de muito frio, fiz uma brincadeira com o cara, tipo, “tira o chulé da chuteira, também, Ximbica”. Ele sorriu e contra-atacou: “Pelé, que é Pelé, nunca reclamou de chuteira. Agora, você, um baiano chutador de coco, quer tirar sarro com a minha cara!” . Papos depois, me contou uma história, que eu desconhecia.

Segundo o Ximbica, dois meses antes da Copa do Mundo, o Fluminense excursionara à África e encontrou-se com o Pelé, na Nigéria. O “Rei”, que havia parado, em 1974, acompanharia os tricolores em programas promocionais, mas os torcedores nigerianos achavam que o “Camisa 10” iria jogar. Foram para o estádio e ficaram uma fera quando souberam que não era nada do que mal haviam lhes informaram.

“A coisa ficou feia, mas o Pelé é tirou a situação de letra”, me contava o Ximbica, relatando que o antigo craque resolveu vestir o uniforme do Flu e ir a campo, acalmar a galera. “Até ali tudo bem/’ relastava, prosseguindo: “O problema era que o Fluminense não tinha nenhuma chuteira que coubesse, exatamente, no pé do Pelé. Aí, fui eu quem dei uma de Pelé. Como o Negão calça 41 e a menor chuteira que sobrava era 43, coloquei jornais molhados dentro, improvisei o barato. Além, de topar aquilo, ele me deu US$ 100 dólares, de gorjeta, por ter evitado uma guerra entre o Fluminense e a Nigéria”.

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Ximbica escalava o “Flu pelesiano” na ponta da língua: “Renato; Edevaldo, Dário Lourenço, Santiago e Rubem Gálaxie; Marinho Chagas, Zé Roberto e Arthurzinho; Gildásio, Geraldão, Pelé e Gílson “Gênio”. Como ele me dissera que o repórter Antônio Maria Filho, do Jornal do Brasil, estivera naquela excursão, tempos depois o encontrei e o indaguei sobre aquela história do Ximbica. Ele me confirmou a “tricolada” do “Rei”, mas com algumas correções.

Segundo o Maria, o Pelé não queria jogar, por não sentir-se em condições físicas. Além do mais, explicou, o “Rei acompanhava o Flu como garoto-propaganda de produtos brasileiros, e o combinado era ele entrar em campo e saudar a galera. Nada mais”.

No dia 23 de abril de 2005, quando o Vasco da Gama estava em Brasília, para enfrentar o Brasiliense, no dia seguinte – estreia do Jacaré na Série A do Brasileirão – procurei o Dário Lourenço, então treinador cruzmaltino, para saber de mais detalhes daquele jogo. Disse-me ter ficado sabendo que os nigerianos venderam ingressos anunciando que o Pelé jogaria e que a polícia ameaçou ir embora se “ O 10” não rolasse a bola.

Sobre isso, o Antônio Maria contou-me outro lance da confusão: Ângelo Chaves – mais tarde, presidente do clube –, chefe da delegação tricolor, procurou o comando da polícia nigeriana, pedindo segurança para a partida, alegando que a Fifa não permitia jogos sem policiais presentes. Então, ouvira que, na Nigéria, quem mandava eram eles, e não a Fifa. E que não compareceria nenhum policial ao estádio, caso Pelé não jogasse.

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Em agosto de 2002, o meu velho amigo Marreta visitou-me, na redação do Jornal de Brasília, levando junto o Marinho Chagas, a quem indaguei, também, sobre a mesma história. O potiguar revelou-me que eles ficaram sabendo, no hotel que Pelé entraria em campo, uniformizado de atleta, pousaria para a tradicional fotografia de time formado e jogaria uns dez minutos. “Seria coisa, assim, de rolar uma bolinha, rápido, e, depois, dar a volta olímpica, acenando pra galera”, deu-me uma idéia.

Em 1989, procurei saber do Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) se havia algum registro de missão comercial de Pelé, na Nigéria, em abril de 1978. O porta-voz da época, então ministro e depois embaixador Ruy Nogueira colocou-me em contato com o pessoal do departamento que tratava de assuntos africanos. Constava, nos arquivos e recortes de jornais, que uma subsidiária da Petrobras, a Interbras, estava lançando eletrodomésticos, de marca “Tama”, pela África, o que se deduzia que aquele jogo do Flu fora uma das maneiras de tentar ganhar o mercado. Havia referências, também, sobre o tenso clima político nigeriano, coisa assim de guerra civil.

Outro a quem indaguei sobre o tal jogo foi Rubem Gálaxie, quando defendeu o Sobradinho-Botafogo, na década-80. Ele vira muitos carros incendiados pelas ruas da capital nigeriana, o que o Antônio Maria me dissera tratar-se de ataques a veículos governamentais. “Havia o medo de atentados, no dia da partida”, lembrava, acrescentando que o time do Fluminense fora para o jogo em um carro do governo nigeriano.

Rubem Gálaxie contou, também, que a turma levou um susto tremendo, quando o ônibus em que eles iam para o Estádio Nacional passou a levar fechadas e batidas de um carro que aparecera, de repente. Naquele instante, Dário Lourenço viu os policiais que davam segurança ao time do Fluminense puxarem as suas metralhadoras para agirem. Antônio Maria falou sobre isso também – Mauro Naves, repórter da TV Globo, que estava comigo, ouviu. Marinho Chagas se lembrava de um engarrafamento que houve por aqueles instantes de tensão. “Por ali, a coisa esfriou, o susto passou e conseguimos chegar ao estádio, mas com um pé na frente e outro atrás”, comparou.

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Tempos depois, quando o Pelé veio a Brasília, junto com Aníbal Massaini, o produtor, lançar o filme “Pelé Eterno”, e concedeu uma entrevista coletiva à imprensa, depois de tudo, entreguei-lhe uma fita gravada, como seu milésimo, que eu guardava, há mais de 10 anos, e me fora dada pelo locutor Waldir Amaral. Pelé abraçou-me,agradeceu e, então, eu aproveitei para perguntar-lhe sobre o dia em que ele havia “tricolado”. Confirmou-me a história da chuteira do Ximbica e comentou sobre a alegria da torcida ao vê-lo no gramado, com a camisa do Fluminense. E, sorrindo, brincou: “Já que você falou que eu tricolei, lhe digo mais: era pra eu ter tricolado, só por uns dez minutos. Mas me empolguei e tricolei por todo o primeiro tempo”.

Certa vez, num desses encontros de treinadores, estava presente o Paulo Emílio, o técnico do Flu naquele jogo. Claro que ele se lembrava de tudo. Até que o placar fora de 3 x 1 para o seu time. “Naquele dia, o ‘rei das redes’ fui eu, que fiz dois gols”, gabou-se o brincalhão Marinho Chagas, evidentemente, quando falamos sobre o amistoso – segundo ele, Gilson “Gênio” completou o serviço.

Cá entre nós: fiz um sacrifício dando pra levantar esta história, não foi? Agora, fique sabendo da pior: nunca perguntei aos entrevistados contra quem o Fluminense jogou e em que cidade fora a pugna. Imagino que tenha sido em Lagos, a capital nigeriana. Pra piorar ainda mais: também, não perguntei ao Pelé se ele havia envergado a jaqueta 10 do glorioso Tricolor das Laranjeiras. Pode!

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