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Nílton Santos dirigiu cinco times e encerrou carreira de treinador no Taguatinga

Por Gustavo Mariani 24/09/2023 7h26

O futebol candango sempre foi um dos mais fracos do país, por o Distrito Federal não ter representação política, até 1986. Quando a então Federação Metropolitana de Futebol iniciou os seus campeonatos para profissional, em 1976, a bola jogada apor aqui era melhor só do que as acreana, amapaense e rondoniense. Não tinha jeito de ser pior, pois aqueles eram bem mais pobres. Com o passar das disputas a coragem de alguns empresários em investir nos clubes locais (na verdade, times), a coisa melhorou e o balípodo brasiliense se igualou ao de estados pobres do Nordeste, como Piauí e Maranhão.

Com a chegada da representação politica, em 1986, este futebol “ameaçou” progredir mais. Embora não fosse político, mas um eterno apaixonado pelo futebol, o diretor de futebol (e faz tudo no Taguatinga Esporte Clube), Wander Abdala, antigo jogador do Defelê, nas décadas 1950/60, conseguiu, com o governador do DF, José Aparecido de Oliveira, o empréstimo do professor Nílton Santos, que dirigia as escolinhas de futebol para crianças e adolescentes mantidas pelo Departamento de Educação Física, Esportes e Recreação-DEFER. Como estava servidor público, o “Enciclopédia” trabalhava para a garotada pela manhã e treinava o Taguatinga na parte da tarde.

Em sua apresentação ao grupo de jogadores do Taguá, o “professor Nílton”, como a rapaziada o chamava, usou da sua categórica experiência de bicampeão mundial-1958/1962 e de outras conquistas nacionais ao lado de Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo, sobretudo comportamento profissional. Àquela época, os jogadores do “futebol profissional” candango eram tão amadores ao ponto de xingar o treinador quando eram substituídos. Mas, como os treinadores os havia recrutado em campos de peladas e eram velhos amigos, ficava por aquilo mesmo. Nílton Santos, naquela sua apresentação, mais fez uma palestra como “educador” do que como treinador. Lecionou tantas lições, até chegar à necessidade de os atletas não terem focos dentários. Grande problema, pois o Taguá não tinha dinheiro para tratar dos dentes de todos os seus jogadores. O time era mantido muito mais pela paixão do seu presidente, Froylan Pinto, empresário da construção civil e ex-atleta do Botafogo de Salvador, onde jogava com o apelido de Foy.

Começou, então, o Campeonato Brasiliense de Futebol Profissional de 1987. Wander Abdala se virava de um lado, para nada faltar aos jogadores, e Froylan Pinto gastava o que podia, levando broncas da mulher que não aceitava faltar laranja em sua sobremesa, e nunca para os jogadores taguatinguenses após os treinos.

O “Professor Nílton” era sujeito de voz macia, que conseguira domar o compadre Mané Garrincha, que vivia aprontando. Nunca repreendia um jogador, jamais se alterava. Parecia mais Dom José Nílton, arcebispo de Brasília, com aquela sua brandura e que era fã do lateral botafoguense Marinho Chagas. No o time do “Águia Branca”, ele só contava com peladeiros dos campos de barro duro das cidades satélites de Brasília. Mesmo assim, conseguiu levar um mínimo de padrão de jogo à rapaziada. E foi deixando para trás equipes que eram mais ou menos iguais a dele, como, por exemplo, Sobradinho, Gama e Guará. Com aquilo, Nílton Santos levou o Taguatinga à decisão do Candangão-1987, contra o Brasília Esporte Clube que tinha dois atletas vindos de outros estados, o goleiro Vanderlei, de Goiás, e o atacante Da Costa, ex-Vasco da Gama. O Taguatinga já havia sido campeão candango, em 1981, quando Froylan trouxe alguns poucos encostados em times “pequenos” do futebol carioca e os mesclou com o meia Péricles, um dos maiores nomes da história do futebol do DF, e os zagueiros Emerson, ex-Brasília, e Décio, ex-Ceub. Mas, depois daquilo, de tanto levar esporros da mulher, devido as suas gastanças com o futebol, Froylan não teve como segurar a peteca, e o Taguá perdeu os seus “astros” e decaiu.

A final do Campeonato Candango-1987 foi no sábado 23 de agosto, no velho e reconstruído Mané Garrincha. Os amadorzões jogadores do Taguá não negavam estarem satisfeitos com o que já tinham conseguido. Muitos até se sentiam campeões. Nílton Santos, no entanto, mesmo com fala tão mansa, chamou a turma no canto e lhes cobrou atitude. Mesmo assim, o Brasília abriu 2 x 0, com Erasmo abrindo a conta, aos 18 minutos do primeiro tempo, e Ney, aos 2 da segunda fase. O calmo, tranquilo “Enciclópedia”, talvez, pela primeira vez em sua vida de treinador – antes treinara Galícia e Vitória, ambos da Bahia, Bonsucesso-RJ e o São Paulo da cidade gaúcha de Rio Grande – foi para a beira do gramado e passou a gritar com a sua rapaziada. O juiz Edson Rezende de Oliveira não via nada. Os gritos valeram um gol do zagueiro Zinha, aos 14 da etapa final. E ele não conseguiu tirar mais nada daquele time muito amador. E, com Brasília (campeão), 2 x 1 Taguatinga, encerrou a sua carreira de treinador.

O Brasília, treinado por Raimundinho (Antônio Fabiano Ferreira) , papou aquele com: Vanderlei; Oliveira, Remo (Filgueiras), Quidão e Nescau; Marco Antônio, Josimar e Bolão; Erasmo, Da Costa e Ney (Darlã). O Taguatinga alinhou: Elvis; Pedrinho, Bilzão, Zinha e Roosevelt; Bilzinho, Da Silva e Marquinhos (Dorival); Agnaldo, Genivaldo (Newmar) e Marcelo, rapaziada que ficou a dois pontos dos campeões, em jogo sem público e renda divulgados, mas que foram pequenos, sem cobrir os custos daquela final.

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