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Educar é ação

Professora Jecelma da Escola Classe Almécegas de Brazlândia utiliza uma didática lúdica e encantadora no ensino remoto.

Professora Jecelma da Escola Classe Almécegas de Brazlândia utiliza uma didática lúdica e encantadora.

Philip Ferreira

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A professora  Jecelma Tereza dos Reis vem realizando um belíssimo trabalho na Escola Classe Almécegas, em Brazlândia, nesse período de ensino remoto.

A escola rural conta com 156 alunos e a gestão é composta pelo diretor Paulo dos Santos e a vice-diretora Jucivânia Rocha. Compõe também o comitê pedagógico local  as professoras Maria Inez e Mônica Aparecida, além da secretária Erismar Carvalho.

Segue o relato escrito pela professora Jecelma, que mesmo com tantas dificuldades, é um exemplo para nós educadores:

As aulas presenciais foram suspensas no dia 13 de março  devido à pandemia de COVID-19. Não esperava que fosse demorar tanto. Após duas semanas em casa, e diante do cenário de incertezas, comecei a me preocupar com os meus alunos, pois percebi que a suspensão das aulas poderia se alongar bastante, e todo vínculo, que demorou a ser construído, estaria ameaçado. As crianças de 4/5 anos, a maioria em seu primeiro contato com a escola ,necessita estabelecer vínculos de confiança, que no início dessa construção é bem doloroso para eles e um desafio para o professor.  Levei essa preocupação ao grupo gestor, me dispondo a  manter contato com  pais/alunos a fim de não perder os laços, outrora construídos. Recebi todo o apoio necessário,  e então comecei a desenvolver um trabalho diário, via whats app. Passei a enviar  pequenos vídeos com historinhas ou atividades que pudessem ser realizadas ali, com o que tivessem, sem a necessidade de material escolar.

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           Com o início oficial do ensino remoto, tive a certeza de que teria que ressignificar  minha prática pedagógica; mas isso não significava perder de vista a sala de aula e o contexto do aluno. Os desafios, agora,  iam além do vínculo inicial. Então, me perguntei: como motivar, chamar a atenção, promover a aprendizagem, despertar o interesse do aluno em uma relação, agora, mediada pela tecnologia? A partir dessa reflexão, fiz meus planos de ensino.  Pensei e organizei cenários que chamassem e prendessem a atenção deles. De certa forma, uma ambientação que lembra a sala de aula e um ambiente educativo. Uma tentativa de minimizar o impacto da distância física; e contextualizar as aprendizagens. Tive o cuidado de produzir vídeos curtos, para que não  ficassem cansativos e, principalmente, não tornassem o uso da internet dispendioso para os pais. Planejei  atividades utilizando, em sua maioria, materiais recicláveis para que todos pudessem ter acesso e participar de forma prazerosa. O resultado foi surpreendente. Os alunos se mostraram empenhados no desenvolvimento das propostas, retornando atividades com entusiasmos; valorizando e fazendo questão das devolutivas da professora. Enfim, não houve resistência  diante do “novo”. Vale ressaltar que os cursos de formação, as trocas, os encontros virtuais semanais; oferecidos pela equipe pedagógica da escola, me ajudaram muito nessa ressignificação. Uma parceria que me deu condições para enfrentar tantos desafios.

      As famílias não têm acesso à tecnologia, não têm computador nem internet banda larga. A relação é mediada pelo celular, com produção de áudios, vídeos e acesso ao aplicativo Whatsapp; além das atividades impressas. Costumo realizar vídeo chamada para não perder o vínculo afetivo, tão importante nessa faixa etária.  Os pais se esforçam para os filhos participarem. Conto com essa importante parceria, desde o início. Há situações que emocionam. Certa vez, uma mãe relatou que precisava “subir o morro” para receber os vídeos e para enviá-los também. Outras se desculpam pelo atraso da semana. Por falta de dinheiro, precisou aguardar o pagamento para repor os dados móveis. Há o caso de um aluno que recebe atividades impressas, enviadas pelo diretor, no e-mail da patroa dos pais, que entrega à família. Isso também me comove, pois é uma prova de que ainda há pessoas preocupadas com o outro, dispostas a ajudar.

           Vejo a educação, também, como um ato de amor. Acredito que somente ela é capaz de mudar vidas e transformar muitas realidades. A minha trajetória de estudante não foi muito diferente do que percebo no contexto dos meus alunos. Minha infância foi em uma fazenda, e o acesso ao ensino era difícil, as condições financeiras não ajudavam muito; mas a vontade de aprender superava tudo. Além disso, acreditei quando meus pais falaram que estudo era algo muito importante em nossas vidas. Hoje, admiradora de Mário Sergio Cortella e, principalmente,  de Paulo Freire, também acredito que devemos valorizar os conhecimentos que os alunos trazem,  e ensinar a partir do contexto, fator determinante no significado das aprendizagens. Graças a Deus tem dado certo. O retorno tem sido positivo. O engajamento dos pais, mesmo diante das dificuldades, superou as expectativas. Fazem questão de postar fotos (dos alunos e das atividades impressas), áudios e vídeos. Dessa forma, estou conseguindo alcançar meus objetivos: contribuir para a inclusão social e formar cidadãos críticos, conscientes, responsáveis e éticos, transformando-os em sujeitos de sua própria aprendizagem.

           É característico da educação, a mudança constante no ensino, seja ele presencial ou híbrido (remoto), em decorrência da heterogeneidade. Haverá, sempre, a  necessidade de olhar diferenciado para compreender, respeitar e atender às  individualidades. Nesse sentido, a promoção da equidade no ensino será sempre o  grande desafio. E a tecnologia tem  contribuindo, nesse período de pandemia, possibilitando  que vários objetos de aprendizagens sejam oferecidos aos alunos, favorecendo abordagens pedagógicas diferenciadas. Por outro lado, a ressignificação, colocou em evidência um fator que não pode ser desconsiderado: a falta de acesso à tecnologia como mais um obstáculo na promoção da equidade.

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          Sou grata a todos que me ajudaram e me ajudam na construção do meu conhecimento: à equipe da Escola Classe Almécegas,  pelo apoio,  incentivo e reconhecimento ao meu trabalho; colegas de trabalho e amigos, que atuam na educação, nos quais me inspiro, pois sempre realizaram um trabalho com o objetivo de transformar realidades. Sairei dessa experiência fortalecida e um ser humano bem melhor; além da sensação de ter aprendido muito mais do que ter ensinado.

 

 

 

 




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