Parece-me que estamos vivendo uma nova corrida entre a educação e a tecnologia, uma disputa que talvez seja decisiva para o futuro da democracia brasileira. O desafio é descobrir se seremos capazes de fortalecer os vínculos humanos, a convivência comunitária e as instituições sociais em uma velocidade maior do que aquela com que o isolamento digital vem enfraquecendo essas estruturas.
As novas tecnologias estão fazendo com que nossas crianças cresçam em um mundo no qual os encontros presenciais se tornam menos frequentes e, muitas vezes, considerados dispensáveis. Grandes empresas construíram negócios extremamente lucrativos oferecendo serviços que reduzem a necessidade de sair de casa ou de conversar pessoalmente com alguém. YouTube, iFood, Mercado Livre, Netflix, TikTok, Instagram, plataformas de jogos e aplicativos de apostas passaram a ocupar uma parcela significativa da rotina de milhões de brasileiros. Cada vez mais, o cotidiano acontece diante de uma tela: as compras são feitas por aplicativos, as refeições chegam por entregadores, as amizades são acompanhadas por curtidas e vídeos curtos, enquanto as conversas são substituídas por mensagens apressadas, áudios acelerados, figurinhas e emojis.
Isso pode representar quase uma hora diária de isolamento confortável, ou de crianças se revezando para assistir a vídeos e jogar no celular de algum colega. Na região onde vivemos, já não é tão comum encontrar grupos de crianças organizando espontaneamente uma partida de futebol na rua, uma brincadeira no parque ou um jogo na quadra do bairro.
As crianças também circulam menos livremente pelos espaços próximos de casa. Quando praticam futebol, basquete, vôlei ou qualquer outra atividade, geralmente estão sob a orientação constante de professores, treinadores ou familiares. São cada vez mais raras as situações em que precisam formar seus próprios times, estabelecer regras, lidar com frustrações ou solucionar desentendimentos sem a intervenção imediata de um adulto. Quando a convivência se torna excessivamente controlada, programada e pouco frequente, os vínculos pessoais se enfraquecem. Ao mesmo tempo, diminuem as oportunidades de desenvolver autonomia, discernimento, tolerância e capacidade de negociação.
Pessoas isoladas também podem se tornar mais vulneráveis às opiniões de influenciadores, celebridades digitais e produtores de conteúdo que acompanham diariamente. Gradualmente, comportamentos exagerados, encenações e conflitos fabricados passam a parecer normais. Perdem-se, assim, as oportunidades de vivenciar pequenos desentendimentos e de aprender a resolvê-los como parte natural da vida em sociedade.
Eu me surpreenderia se Malu, minha filha, e muitas crianças de sua geração tivessem enfrentado sequer uma pequena parte das discussões, negociações e reconciliações espontâneas que marcaram a infância de gerações anteriores. Não porque as crianças de hoje sejam menos capazes, mas porque têm menos oportunidades de experimentar essas situações sem supervisão. Algumas pessoas podem pensar que esportes, celulares, transporte escolar, brincadeiras de rua e hábitos cotidianos pouco têm a ver com educação democrática. No entanto, essa conclusão ignora que a democracia não é construída apenas nas eleições, nos partidos políticos ou nas instituições governamentais; ela também nasce das relações estabelecidas todos os dias entre pessoas diferentes.
No Brasil, pensadores como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro compreenderam a escola como uma instituição essencial para a formação de cidadãos e para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Para eles, a educação não deveria limitar-se à transmissão de conteúdos, mas proporcionar experiências de convivência, participação, responsabilidade e respeito ao bem comum.
A própria Constituição Federal de 1988 estabelece que a educação deve contribuir para o pleno desenvolvimento da pessoa, para o exercício da cidadania e para a preparação para o trabalho. Isso significa que formar um cidadão não é apenas ensinar como funcionam os Três Poderes, apresentar a história das eleições ou explicar os direitos previstos na legislação, mas também desenvolver atitudes e hábitos que permitam às pessoas viverem juntas, respeitarem diferenças e tomarem decisões responsáveis. São essas práticas cotidianas que sustentam uma democracia saudável, pois influenciam a maneira como dialogamos, discordamos, cooperamos e participamos da vida coletiva. Entretanto, muitas propostas de educação cidadã começam imediatamente pela política partidária ou pelo ativismo, como se incentivar os estudantes a defender determinada causa fosse suficiente para formar cidadãos preparados para a democracia.
Talvez estejamos começando pelo lugar errado.
Em uma democracia equilibrada, a política eleitoral deve ocupar uma parte importante, mas não exclusiva, da vida das pessoas. Um sinal de adoecimento social aparece quando as disputas políticas invadem todas as dimensões da existência e transformam preferências culturais, esportivas, religiosas ou musicais em indicadores automáticos de posicionamento ideológico.
Quando o clube de futebol, o estilo musical, a roupa utilizada ou o lugar frequentado passam a ser tratados como provas de pertencimento político, o espaço para o diálogo diminui. As pessoas deixam de conversar umas com as outras e passam a se relacionar apenas com aqueles que pensam de maneira semelhante. Por isso, a educação democrática não pode se restringir a ensinar em quem votar ou como funcionam as instituições públicas. Ela precisa formar os costumes, as atitudes e as virtudes que tornam possível a vida em sociedade: responsabilidade, moderação, reciprocidade, empatia, disposição para ouvir e capacidade de aceitar que nenhuma pessoa possui todas as respostas.
Ao longo da história brasileira, a escola recebeu a missão de colaborar com a formação de cidadãos capazes de participar da construção do país. Entretanto, parte da educação contemporânea parece ter perdido de vista alguns desses compromissos fundamentais.
Em determinadas situações, o desejo de agradar e motivar os estudantes faz com que a exposição pública seja confundida com participação cidadã. Compartilhar um vídeo de manifestação, publicar uma frase de impacto ou reproduzir uma opinião popular nas redes sociais não significa necessariamente compreender um problema, avaliar evidências ou estar preparado para dialogar com quem pensa de maneira diferente.
O engajamento cívico não pode ser reduzido a uma performance digital.
Quando os estudantes aprendem que participar da sociedade significa apenas produzir uma postagem, repetir palavras de ordem ou demonstrar indignação diante de uma câmera, corremos o risco de substituir a cidadania pela busca de visibilidade. A participação democrática exige muito mais: estudo, paciência, escuta, responsabilidade e disposição para revisar as próprias opiniões.
Tudo isso possui profundas consequências na corrida que enfrentamos diante do avanço tecnológico. Os estudantes estão ingressando em um mundo no qual páginas, documentos e registros digitais podem desaparecer rapidamente. Muitas vezes, conteúdos importantes deixam de estar disponíveis, dificultando o acesso a fontes primárias e a possibilidade de verificar informações. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial passa a oferecer respostas prontas sobre praticamente qualquer assunto. Sem formação adequada, crianças e jovens podem aceitar essas respostas sem questionar sua origem, sua precisão ou os interesses envolvidos em sua produção. O texto impresso também perde espaço, enquanto vídeos curtos, memes, cortes de entrevistas, reels e podcasts se tornam fontes predominantes de informação. Esses formatos podem ser úteis e educativos, mas as plataformas costumam premiar aquilo que provoca reações imediatas, não necessariamente aquilo que é mais preciso, equilibrado ou verdadeiro.
Nesse ambiente, uma afirmação exagerada pode alcançar milhões de pessoas antes que alguém tenha tempo de verificar os fatos. Opiniões ponderadas podem ser ignoradas pelos algoritmos, enquanto robôs, perfis falsos e campanhas coordenadas ampliam artificialmente discursos de ódio, boatos e controvérsias fabricadas. A lógica da informação permanente cria a sensação de que todos os acontecimentos exigem uma reação imediata. Raramente há tempo para pensar, pesquisar e compreender. As pessoas são pressionadas a escolher um lado antes mesmo de conhecerem adequadamente o problema.
É justamente nesse mundo que os estudantes precisam desenvolver discernimento. Eles devem aprender a avaliar evidências, comparar fontes, identificar manipulações, reconhecer seus próprios preconceitos e participar de debates civilizados. Precisam compreender que mudar de opinião diante de novas evidências não é sinal de fraqueza, mas de maturidade intelectual.
Gritar opiniões mal fundamentadas, humilhar adversários ou compartilhar informações sem verificação não contribui para a formação democrática. Pelo contrário, fortalece o ambiente de polarização que dificulta a cooperação e destrói a confiança entre as pessoas. Espero que, em algum momento, a sociedade brasileira se canse das bravatas, das ofensas e da polarização constante. Porém, quando isso acontecer, talvez descubramos que muitas pessoas já não possuem as habilidades necessárias para reconstruir os espaços de diálogo, recuperar a confiança nas instituições e restabelecer normas básicas de convivência. Responder a esse desafio não pode ser responsabilidade exclusiva das escolas e das universidades. As famílias, os meios de comunicação, as empresas de tecnologia, as instituições públicas e as organizações da sociedade civil também precisam assumir sua parcela de responsabilidade.
Ainda assim, nossas instituições de ensino possuem um papel insubstituível. A escola continua sendo um dos poucos lugares em que crianças e jovens de diferentes origens podem conviver, cooperar, discordar e aprender juntos. É na escola que Malu e milhões de outras crianças brasileiras poderão aprender que o mundo não existe apenas para atender imediatamente aos seus desejos. É ali que poderão descobrir que outras pessoas possuem necessidades, histórias e opiniões diferentes. É também nesse espaço que aprenderão a argumentar sem atacar, a perder sem humilhar, a vencer sem desprezar e a resolver conflitos sem transformar o outro em inimigo.
A grande corrida entre educação e tecnologia não será vencida pela proibição completa das telas, nem pela rejeição dos avanços tecnológicos. A tecnologia pode ampliar o acesso ao conhecimento, aproximar pessoas e criar oportunidades extraordinárias de aprendizagem. Entretanto, ela precisa estar subordinada a objetivos humanos e educacionais, e não o contrário. O verdadeiro desafio é ensinar as novas gerações a utilizar a tecnologia sem permitir que ela substitua a convivência, a reflexão e a autonomia. Precisamos formar crianças capazes de desligar a tela, olhar nos olhos de outra pessoa, ouvir opiniões diferentes e participar da construção de soluções coletivas. Ao pensarmos no futuro do Brasil, devemos perguntar se nossas escolas estarão preparadas para essa tarefa. Mais do que formar usuários eficientes de tecnologias, elas precisarão formar seres humanos conscientes, cidadãos responsáveis e pessoas capazes de sustentar a vida democrática.
O futuro da democracia brasileira talvez dependa menos da quantidade de informações que nossos estudantes conseguem acessar e mais daquilo que aprendem a fazer com elas, e, principalmente, da maneira como aprendem a conviver uns com os outros.