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Tratado básico sobre a ressaca – Parte III

Já vimos em nosso Tratado Básico sobre a Ressaca o que é a ressaca e como a prevenir, agora, se ela já se instalou, só resta correr atrás

Por Sérgio Pires 11/01/2022 4h14
Tratado básico sobre a ressaca – Parte III

Nas duas partes iniciais do nosso Tratado Básico sobre a Ressaca desvendamos o que afinal é a ressaca e tratamos de como a prevenir antes e durante o ato de beber, agora, se você não se antecipou e a ressaca já se instalou, só resta correr atrás de consertar o estrago.

Vamos apresentar algumas soluções, mas o tema é tão extenso que já está me dando uma ressaca, pretendo encerrar o assunto nesta coluna, mesmo sem o ter esgotado, já que, semelhante à “ira da vinhas”, é impossível chegar ao final dele.

Hoje, existem pílulas milagrosas, mas eu sou do tempo das grandes ressacas.

Luis Fernando Verisimo, escritor

Depois: O dia seguinte – planos de contingência

Desintoxicação

Para enfrentar o álcool ingerido o aparelho digestivo teve muito trabalho extra. O estômago precisou fabricar mais suco gástrico; o fígado mais bile, além de ter que neutralizar as toxinas presentes pelo álcool. O intestino necessitou produzir mais suco entérico e ainda ficou com o trânsito mais lento. Agora temos de colaborar com nosso corpo neste processo de desintoxicação.

Hidratação

As bebidas alcoólicas são muito diuréticas e fazem com que o consumidor urine mais que o normal, provocando uma grande perda de água do organismo. Se esta água não tiver sendo reposta adequadamente, o corpo na tentativa de se reidratar “rouba” água do cérebro, que acaba ficando um pouco menor do que o normal. As membranas que ligam o cérebro ao crânio são esticadas e assim surge a dor.

Para amenizar a situação a receita é água, muita água. Ela repõe os líquidos perdidos, permitirá que o cérebro volte a funcionar normalmente e facilita o trabalho do fígado e dos rins, auxiliando na remoção das toxinas acumuladas. Outras bebidas não alcoólicas também ajudam:

  • água de coco (contém potássio);
  • sucos de frutas frescas;
  • isotônicos, assim como os sucos e a água-de-coco, vão repor não só a água mas também os sais minerais e as vitaminas perdidas;
  • café – apenas se você for um consumidor habitual e sua falta o leve para uma crise de abstinência de cafeína em cima da ressaca. A cafeína estreita os vasos sanguíneos e aumenta a pressão arterial, o que pode fazer a ressaca piorar;
  • refrigerante normal, não as versões light ou diet, vão repor a glicose eliminada pelo álcool;

Rebater a ressaca com mais bebida alcoólica até funciona, porque atrasa a desintoxicação do corpo, mas só faz adiar e potencializar a ressaca, além de ser um caminho seguro para o alcoolismo.

Comer

Urinar em excesso não acarreta apenas a perda de água, mas também, a de diversos nutrientes do organismo. Portanto além da reidratação precisaremos ingerir alimentos que reponham as vitaminas, glicose, sais, potássio, aminoácido, etc.

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Um problemas adicional é que o paladar, por causa da desidratação, fica prejudicado. A boca fica seca e com o gosto ácido das substâncias que o estômago despeja para processar o álcool.

Se o sal em excesso faz mal à saúde, sua falta é igualmente prejudicial. Ele é muito necessário para que o corpo consiga realizar algumas das principais reações químicas necessárias para a manutenção dos estados normais. Isso acontece porque o sal é rico em sódio, eletrólito essencial para os seres humanos. Junto com o potássio, o sódio é eliminado em grandes quantidades pela urina.

O melhor para comer são os alimentos de fácil digestão para não estressar ainda mais o organismo.

  • frutas, para reidratar, repor as vitaminas e recuperar as reservas de energia por meio da frutose (açúcar das frutas);
  • pão, batata e massas, para obter glicose;
  • vegetais para repor as vitaminas que auxiliarão no funcionamento dos rins e do fígado, os principais órgãos responsáveis pela desintoxicação;
  • fibras solúveis, como o farelo de aveia ou trigo, arroz integral ou pão integral;
  • ovos, brócolis, pimenta, cebolas e gérmen de trigo, que contém cisteína, aminoácido que é responsável pela eliminação de boa parte do acetaldeído, o grande vilão da ressaca;
  • bananas e suco de laranja, para repor o potássio;
  • evite: carne vermelha (para não sobrecarregar o fígado), queijos, molhos e frituras. Elimine ainda os alimentos industrializados, embutidos e enlatados, como salsichas, presunto, biscoitos, entre outros. Bacon e ovos não aliviam a ressaca, isto é apenas uma lenda urbana.

Cansaço

O glicogênio, nossa reserva de energia é armazenada no fígado e nos músculos. Quando ingerimos álcool, o glicogênio é transformado em glicose e logo depois é eliminado do corpo pela urina. Por isso é muito comum a sensação de total cansaço nas manhãs “pós-bebedeira”.

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Repouse bastante, mantenha a luz apagada, cortinas fechadas e fique deitado. A ressaca aumenta a sensibilidade à luz, aos cheiros e ao barulho. A privação do sono não causa ressaca, mas contribui para piorar os sintomas, então procure dormir.

Ginástica ou sauna

Malhar na academia ou correr não é uma boa idéia. O corpo está cansado, e gastando todo o estoque de glicose na sua recuperação, aí vem o “ressacado” e inventa um novo jeito de gastar mais glicose ainda, sem falar na desidratação.
Fazer sauna na esperança de “suar” todo o álcool e outras toxinas que consumiu é um grande e perigoso engano. Se você já está um pouco desidratado, a transpiração excessiva pode ser prejudicial e até mortal.

A sauna pode causar mudanças potencialmente perigosas nos vasos sanguíneos e no fluxo de sangue em seu corpo, acarretando quedas perigosas na pressão sanguínea e ritmo cardíaco anormal.

Remédios

Para resumir, NÃO EXISTE remédio que impeça a intoxicação causada pela ingestão de álcool. Todos os remédios que anunciam a possibilidade beber sem problemas, evitando a ressaca são propaganda enganosa.

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Estes remédios não impedem a ressaca apenas tratam dos seus sintomas. Normalmente são compostos de: analgésicos, como o ácido acetilsalicílico, a popular aspirina, para a dor de cabeça; antiácido: hidróxido de alumínio; anti-histamínico: mepiramina, que reduz enjôos e vômitos; e cafeína – estimulante do sistema nervoso central, que diminui o torpor.

No final, o tratamento infalível para ressaca é o tempo.

Evitar

Se estiver de ressaca não dirija. A ressaca piora os reflexos, a concentração e a capacidade visual, aumentando o risco de acidentes. O mesmo conselho serve para quem trabalha com máquinas ou instrumentos perigosos.

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A opção mais segura para evitar a ressaca pelo álcool aparentemente seria nunca o beber. Eu não chegaria a afirmar como o jornalista e escritor americano Ambrose Bierce, que o “abstêmio é uma pessoa fraca que cede à tentação de negar para si mesma um prazer”. Estou mais para o enunciado de Aristóteles virtus in medium est (a virtude está no meio).

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Bem, chegamos ao final do nosso Tratado Básico Sobre a Ressaca, espero ter colaborado para que meus amigos leitores possam beber com prazer e com qualidade, sem excessos, sem prejuízos à saúde e sem a punição da ressaca.








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