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Lorangi: uma casa de vinhos da Geórgia no Planalto Central do Brasil!

A vinícola familiar Lorangi, localizada em Formosa-GO, abriu as portas ao público pela primeira vez, para apresentar seu vinho Syrah

Por Jorge Waquim 28/12/2021 6h40
Lorangi: uma casa de vinhos da Geórgia no Planalto Central do Brasil! Lorena Ferraz e Gocha Bikashvili. Foto: Henrique Kotnick/Jornal de Brasília

No último dia 19, a Associação Brasileira de Sommeliers do DF, com a organização do seu presidente, Sergio Pires, levou um seleto grupo de amantes, curiosos e sommeliers do vinho para participar da tradicional cerimônia de abertura da ânfora de barro no estilo georgiano, onde foi possível degustar o vinho direto da fonte, e de forma única.

A cerimônia foi performada na vinícola familiar LORANGI, em Formosa-GO, que abriu as portas pela primeira vez ao público externo, como em um debut, e apresentou aos participantes, de forma exclusiva, seu segundo lote de vinho Syrah, harmonizado com pratos georgianos e seguido de uma degustação de vinhos laranja, trazidos da Geórgia especialmente para a ocasião. A decoração da casa também precisamente inspirada pela cultura georgiana, onde se podiam ver diversos elementos vinculados à cultura de vinhos do país, como copos personalizados, taças em forma de chifres (kantsi), adagas, quadros e banners, além de vídeo projeção com músicas e danças clássicas.

Com uma proposta inovadora e permeada por tradições milenares, Goiás sedia a que provavelmente seja a primeira marani no Brasil, a lorangi. Marani é uma casa de produção de vinhos no estilo da Geórgia, país localizado entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, entre a Europa e o oriente. A LORANGI chega com a proposta de produzir no Brasil vinhos a partir de técnicas ancestrais de vinificação inspiradas na Geórgia, país que também é considerado o berço do vinho, com os primeiros registros da bebida datados de mais de oito mil anos.

A sommelière e socióloga Lorena Ferraz e o georgiano Gocha Bikashvili iniciaram a produção de vinhos em 2019, quando começaram a experimentar e estudar o produto híbrido, que mistura a técnica ancestral com castas produzidas no Novo Mundo. Lorena teve o primeiro contato com a cultura georgiana no curso de formação de sommeliers da ABS-DF e já visitou o país eurasiático e a região de Kakheti, que está entre as 10 regiões produtoras de vinhos no país, além da capital, Tbilisi. Ao provar o vinho georgiano e o vinho laranja feito pela família Bikashvili, foi paixão à primeira taça. Gocha presenteou Lorena com a receita de vinho de sua família, que foi registrada como segredo industrial, e assim nasceu a LORANGI.

Veja algumas imagens do evento

Para saber mais detalhes dessa história, que é muito particular, entrevistei Lorena Ferraz, coproprietária da vinícola. Confira!

Jorge Waquim: O que motivou a você e ao Gocha a produzir vinho no cerrado, e a performar a cerimônia igual à da Geórgia, considerado o primeiro país a produzir vinho?

Lorena: Fomos motivados e inspirados pelo desejo de disponibilizar “vinho raiz” e puro aos brasileiros, compartilhar o produto de uma receita de vinho familiar e única, e também a ampliar o conhecimento sobre a ancestral tradição e cultura do vinho georgianas, contexto em que a cerimônia de abertura da ânfora com vinho é peça-chave da vivência e consumo do vinho.

Na Geórgia, a relação que as pessoas/famílias têm com as parreiras e com os processos de vinificação é essencial e profunda, pois é mais que um “saber fazer”, é parte constitutiva da vida cotidiana e da identidade de uma nação.

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Nesse sentido, entendemos que é importante ampliar conhecimento dessa relação já tão madura nos países mais jovens, que estão aprendendo e desenvolvendo sua identidade vinícola, assim como o “gosto do vinho” de forma geral. Acreditamos que essa interação e cultura tem um potencial profícuo enorme para a cultura do vinho.

Jorge Waquim: Qual o significado da cerimônia que aconteceu no dia 19 de dezembro?

Lorena: A cerimônia do dia 19 representa tanto a inauguração da lorangi para o público, como o compartilhar de um procedimento e experiência únicos da cultura georgiana. Foi como um rito de passagem que abriu a interação da vinícola com o público brasiliense, e com os profícuos projetos de enoturismo que estão acontecendo na região hoje, e que somos parte, fazendo uma pequena contribuição.

As ânforas de barro (chamadas Qvevri) seladas com cera de abelhas são para os georgianos o lugar onde o vinho nasce, metaforicamente como na barriga das mães. É também considerado um local sagrado, por gestar e manter a energia do vinho. Abrir uma ânfora é como assistir ao nascimento do vinho, e provar o momento mais essencial da bebida divina. Essa foi a experiência disponibilizada no dia 19.

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Jorge Waquim: Quais vinhos serão produzidos e o que os diferenciam?

Lorena: A LORANGI trabalha com o conceito de intervenção mínima na elaboração de seus vinhos e traz dois rótulos em seu debut: o vinho laranja, feito com a uva Moscatel, de Petrolina-PE, em 2019, e o vinho tinto feito a partir das uvas Syrah de Lagoa Grande-PE, em 2019 e 2021. Produzimos vinho com método de “vinho laranja”, quanto à cor, tanto tinto como laranja, que é símbolo da cultura georgiana.

O que se tem dentro de uma garrafa LORANGI é 100% o produto da ação da natureza, nós apenas controlamos as condições de assepsia, temperatura e acondicionamento para que a natureza possa trabalhar bem, com saúde. Não é um vinho padronizado, por isso o conteúdo de cada ânfora é único, como em um artesanato ‘feito à mão’.

Vinhos jovens e frescos, brasileiros, com taninos particulares, mas inspirados nas regras das tradições milenares georgianas, de fermentação natural, sem aditivos, e passam pelas ancestrais ânforas de barro em sua elaboração.

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Na LORANGI, a fermentação tanto do vinho laranja quanto do vinho tinto é feita em contato com os engaços e as bagas. O mosto é estabilizado em contato com os sólidos do cacho da uva, a chamada “chacha”, a 20 °C. Não há adição de leveduras artificiais ou de métodos de correção que possam interferir no processo natural de vinificação. Os vinhos são parcialmente filtrados com técnicas de intervenção mínima, de maneira a preservar as características do terroir e da casta.

Jorge Waquim: Que mensagem você passaria aos interessados por vinho e aos sommeliers que estão iniciando?

Lorena: O Brasil é um país em processo de desenvolvimento do “gosto do vinho”, entre outras coisas, e os sommeliers têm papel importante a desempenhar nessa construção, para que o vinho se torne parte da dieta, da cultura e da vida da maioria dos brasileiros, sem medo de errar e “não saber” escolher ou apreciar um ‘bom e velho vinho’.

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Conectada ao vinho existe muita cultura, conhecimento, estilos de vida e de interação social, é sem dúvida um universo muito rico e ancestral, e que é parte da História humana e social, por isto também relevante. Não é apenas sobre “bom gosto”, é sobre fruição e felicidade!

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Destacamos que, em 2013, o método tradicional único da Geórgia de fermentar vinho em Qvevri foi registrado na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da organização educacional, científica e cultural da ONU (UNESCO).
https://ich.unesco.org/en/RL/ancient-georgian-traditional-qvevri-wine-making-method-00870








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