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Teatro e Dança

Circuito de Teatro Brasileiro 2026 consolida Brasília como polo cultural

Com sessões esgotadas e abertura de extras, projeto reúne grandes nomes e reforça a força do público brasiliense

Aline Teixeira

01/05/2026 5h00

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Freud e o visitante. Foto: Ronaldo Gutierrez

Pelo quarto ano consecutivo, o Circuito de Teatro Brasileiro reafirma o protagonismo de Brasília no cenário nacional das artes cênicas. Realizado por meio da Lei Rouanet, com patrocínio da Brasal e produção de André Deca à frente da Deca Produções, o projeto se consolidou como um fenômeno de público, com média de dois mil ingressos vendidos por temporada e sessões sistematicamente esgotadas, muitas delas com abertura extra para atender à demanda.

Mais do que números, o sucesso revela uma relação consistente entre curadoria e plateia. Para o diretor Eduardo Figueiredo, que já levou Um Beijo Franz Kafka, O Elogio da Loucura e O Veneno do Teatro três ao circuito, o diferencial está justamente no público da capital. “O público de Brasília é maravilhoso. Sempre atento e com sede de cultura”, afirma. “Em dois deles tivemos que abrir sessões extras.”

Segundo ele, esse cenário também é resultado de um trabalho contínuo de formação de plateia promovido pelo próprio projeto. “É mérito do Circuito de Teatro Brasileiro, que sempre leva para Brasília o que tem de melhor do eixo Rio/São Paulo”, completa.

A programação de 2026 reforça essa vocação ao reunir obras que dialogam diretamente com questões contemporâneas. Espetáculos como Prima Facie abordam a violência de gênero e as falhas do sistema judiciário, enquanto O Filho mergulha na saúde mental juvenil. Já O Motociclista no Globo da Morte investiga as origens da violência urbana, e Deus da Carnificina expõe as fissuras das relações civilizadas.

Ao mesmo tempo, o circuito transita por diferentes linguagens e propostas estéticas. Há espaço para a comédia em Toc Toc, para a reflexão existencial em O Figurante e para a experimentação poética em A Árvore. Também integram a programação produções voltadas ao público jovem, como Bluey Live Show, e montagens que revisitam grandes pensadores, caso de Subversão Kafka e Freud e o Visitante.

Dirigido por Eduardo Tolentino, Freud e o Visitante aposta em uma encenação que equilibra rigor histórico e abertura ao imaginário. “A reconstituição cenográfica mais próxima possível do consultório de Freud em Viena, inclusive com a reprodução da cadeira desenhada por ele, e uma iluminação dominada pelos claros e escuros definem o arcabouço realista da montagem”, explica o diretor.

É nesse ambiente que se constrói o encontro entre Freud e uma figura enigmática. “Quem é essa figura que invade o consultório? Real ou produto da imaginação? Divino ou humano? Essa é a provocação que determina os passos da encenação”, afirma.

Ambientada às vésperas da anexação da Áustria pela Alemanha nazista, a peça também dialoga com o presente. “O que poderia parecer um mero relato histórico soa hoje como metáfora”, diz Tolentino. “Os homens morreram com o sistema, mas o sistema não morreu com os homens.”

Para Eduardo Figueiredo, essa dimensão reflexiva é central no fazer teatral. “Para mim, é fundamental que meus projetos propiciem reflexão, questionamentos. Acho que essa é a função do teatro”, afirma. “Não de maneira maniqueísta, claro, mas cumprindo uma função social de retratar o humano.”

O diretor também destaca a estética como elemento essencial de suas montagens. “Eu acredito no que chamo de dramaturgia da imagem, a estética cênica atrelada ao texto. Os espetáculos são sempre repletos de significação em todos os detalhes.”

Além do impacto artístico, ele chama atenção para o papel estrutural do circuito. “É um projeto fundamental para formação de plateia. Muitas produções dificilmente chegariam a Brasília sem esse tipo de iniciativa”, diz. “Além disso, gera renda e movimenta a economia local.”

Em um cenário de instabilidade social, o teatro assume, segundo ele, uma função ainda mais urgente. “Em um momento com tantas adversidades e inversões de valores, o teatro nos apresenta uma importante reflexão sobre civilidade e empatia nos dias atuais.”

Freud e o Visitante
Data: 16 a 17 de Maio
Local: Teatro UNIP
Ingressos: Freud e o Visitante em Brasília – Sympla

Subversão Kafka
Data: 25 e 26 de julho
Local: Teatro Unip

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