A história de João Cândido Felisberto volta à cena em Brasília não como biografia, mas como atravessamento. Em cartaz nos dias 22 e 23 no Teatro SESC Newton Rossi, em Ceilândia, o espetáculo Almirante Negro – Mestre Sala dos Mares aposta em uma construção poética e fragmentada para revisitar a trajetória do líder da Revolta da Chibata a partir de suas camadas mais humanas.
Dirigida por Ricardo César, com dramaturgia de Bruno Estrela e atuação de Otto Caetano, a montagem parte de uma imagem potente: João Cândido em confinamento, tentando manter a sanidade enquanto borda. É a partir desse gesto que o espetáculo se desdobra, não em linha reta, mas em fluxo.
“A gente não quis construir uma narrativa linear. Nos interessava muito mais acessar as fragilidades e a humanidade dessa figura que virou símbolo”, explica a equipe. A escolha revela um deslocamento importante: sair do herói monumental para encontrar o homem atravessado por medo, dúvida e incerteza.

“Desde o início, nos interessava explorar as vulnerabilidades do homem real João Cândido, em contraponto à figura clássica do herói. Ele teve coragem de enfrentar as maiores autoridades do país, mas era um ser humano, com todas as complexidades que isso envolve”, aponta Suzanny Costa Trapezio.
Essa abordagem ganha ainda mais força ao partir de um dos momentos mais duros da trajetória do marinheiro. “Talvez o momento de maior vulnerabilidade seja justamente o período de internação compulsória. Começar por aí abre muitas possibilidades narrativas”, completa.
Mais do que revisitar um episódio histórico, o espetáculo constrói pontes entre tempos. A Revolta da Chibata aparece como parte de uma linha contínua de violência e resistência que não se encerra no passado.

“João Cândido é um símbolo que ultrapassa o tempo. A luta que ele representa começa lá atrás, com a invasão de 1500, e segue até hoje”, diz Suzanny. “Durante o processo, fomos percebendo essas conexões de forma muito orgânica, e isso acabou moldando a experiência que chega ao palco.”
A encenação assume essa não linearidade como linguagem. Ao invés de organizar os fatos cronologicamente, a narrativa costura diferentes períodos históricos para evidenciar permanências. “O racismo é resultado de séculos de violência e, mesmo quando parece ser superado, ele se reinventa. A crueldade do Brasil colônia ou da Primeira República é a mesma que enfrentamos hoje”, afirma.
Em cena, som, silêncio, canto e projeções constroem uma experiência sensorial que vai além do discurso direto. A ideia é provocar o espectador em diferentes camadas — não apenas intelectualmente, mas também de forma sensível.
E o impacto pretendido é claro. “Quando falamos de racismo, esperamos que pessoas negras consigam identificar suas várias formas e fortalecer essa luta. E que pessoas brancas reconheçam seus privilégios e entendam seu papel nesse processo”, diz Suzanny. “A luta do Almirante Negro ainda está em curso.”
Ao fim, o espetáculo não oferece respostas fechadas. Em vez disso, deixa uma provocação em aberto: a de que a história não está distante — ela segue em disputa, no presente.
Serviço
Espetáculo Almirante Negro – Mestre Sala dos Mares
Local: Teatro SESC Newton Rossi – Ceilândia
Data: 22 e 23 de maio (sexta e sábado)
Horários: 22/05 – 09:00h e 14:30h – 23/05 – 19:00h
Entrada gratuita
Classificação indicativa: 14 anos