Por Marcelo Cavalcanti
“O lazer na periferia é um espaço de resistência, de construção de identidade e de fortalecimento da comunidade”, diz Jean, que começou como DJ em Brasília ainda nos anos 80 e é profissional desde 1997. Ele é da Ceilândia, parceiro do Jovens de Expressão e atua no hip hop desde 1996. Ele explica que o lazer se transforma em ato de afirmação e empoderamento coletivo.
Para ele, as festas e os shows da periferia sempre foram muito mais do que entretenimento. “É onde as pessoas encontram um senso de pertencimento, expressam suas realidades e criam laços que vão além dos eventos.”
O músico DJ Jean C fala do lazer das periferias e como ajudou a construir a identidade de Brasília fora dos cartões postais ao longo dos anos e porque essa história ainda pulsa nas ruas, becos e vielas da cidade.
Foi na Ceilândia que ele aprendeu o que o lazer realmente significa.
Não Planejado
Quando Brasília foi inaugurada, em 1960, o projeto urbanístico previa espaços de convivência e lazer. Mas nas cidades vizinhas que foram crescendo , a população foi criando seus próprios espaços, sem estrutura, sem muito recurso, mas acontecendo mesmo assim.
Jean lembra com precisão os espaços que foram decisivos para a formação da cultura hip hop na cidade.
“O Quarentão em Ceilândia, o Conic, o Pandiá no Setor Militar Urbano, entre quadras e os centros comunitários das cidades-satélites foram cruciais”, enumera. Alguns desses espaços não existem mais. Outros se reinventaram. Mas o que eles produziram ficou.
Para o DJ, existe uma diferença fundamental entre o lazer que a cidade oferece e o que a periferia cria para si mesma.
“O lazer oferecido muitas vezes vem de políticas ou de iniciativas que nem sempre consideram as reais necessidades e a cultura local”, explica.
“Já o lazer criado pela periferia é autêntico, nasce das vivências e das necessidades da própria comunidade, com o jeito e a cara de quem vive.”
Assinatura
Foi deste lazer periférico que nasceu uma das marcas mais reconhecíveis do rap brasileiro, o grave do hip hop de Brasília. Jean conta que essa sonoridade própria tem endereço certo.
“É possível reconhecer o rap de Brasília pelo grave marcante, uma característica que foi introduzida nos discos do Álibi pelo DJ Jamaika e o Rivas”, revela. “Essa assinatura sonora, aliada à diversidade cultural e a força dos coletivos, faz com que o rap de Brasília tenha um impacto singular e ressoe por todo o Brasil.”
Grupos como o Câmbio Negro e o Álibi foram referências que moldaram não só o estilo musical de Jean, mas toda uma geração de artistas da cidade. Trabalhar ao lado desses nomes ao longo da carreira só reforçou sua convicção sobre o que torna a cena candanga única.
Quatro elementos
No espaço do lazer periférico, o hip hop sempre se manifestou de forma integrada. Pick-up, grafite, b-boy e MC não são partes separadas da cultura, são um só organismo vivo que se funde nas festas, nos eventos, nas ruas e no fortalecimento da comunidade hip hop.
“A música da pick-up e as rimas dos MCs embalam os movimentos dos b-boys, enquanto o grafite colore e conta histórias visuais da comunidade”, descreve Jean. “Essa integração cria um ambiente único, onde a arte e o lazer se juntam, proporcionando não só entretenimento, mas um espaço de afirmação cultural.”
E essa integração, ele garante, não ficou somente no passado. “Continua viva. Nas festas e eventos, ainda vemos essa união de elementos, para mostrar que a cultura hip hop e o lazer periférico segue forte e com capacidade de se reinventar com o tempo.”
Se Brasília foi planejada, a periferia foi acontecendo, e o hip hop é o registro mais honesto dessa história. “Através das rimas dos MCs, dos murais de grafite, das batalhas de b-boys e do som das pick-ups, o hip hop retrata a realidade das periferias, mostra a força, a criatividade e a resiliência de quem as constrói”, afirma Jean.
As redes sociais ampliaram esse alcance sem mudar a essência. “Hoje, é muito mais fácil divulgar eventos, alcançar um público maior e criar comunidades em torno da cultura”, reconhece. “Os artistas agora conseguem subir suas próprias músicas nas plataformas de streaming, o que democratiza o acesso e dá mais autonomia para os artistas periféricos.”
Legado
Hoje, Jean atua como professor de DJ no Jovem de Expressão, na Praça do Cidadão, e acompanha de perto a Casa do Hip Hop em Ceilândia, dois espaços que ele aponta como fundamentais para a continuidade da cultura na cidade.
Para os jovens que querem entrar na cena, o conselho é direto, “Sejam verdadeiros, gostem do que fazem e sempre procurem fortalecer seus próprios coletivos. Construir e fortalecer a cena em conjunto é fundamental para encontrar um caminho melhor e mais sólido.”
Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira