Existe um tipo específico de coragem em um filme de super-herói que decide não correr atrás da explosão maior, da ameaça mais cósmica ou do vilão mais espetacular. Supergirl, inspirado na história em quadrinhos de Tom King, Bilquis Evely e Mat Lopes, pertence a essa categoria rara. Em vez de tentar impressionar pela escala, o longa aposta tudo em uma pergunta simples: o que sobra de uma pessoa depois que ela perde tudo, e o que ela escolhe fazer com essa dor. É uma escolha narrativa louvável, mas que nem sempre encontra na execução o fôlego necessário para se expandir por completo.
Kara Zor-El, interpretada por Milly Alcock, não chega à tela como uma heroína pronta. Ela aparece cansada, machucada por dentro, tentando se afastar das próprias lembranças em um planeta de sol vermelho, onde seus poderes diminuem o suficiente para permitir algo tão humano quanto se embriagar no próprio aniversário. Kara carrega o peso de ter sobrevivido à destruição de Krypton dentro de uma cápsula construída pelo próprio pai, vivido por David Krumholtz, que consegue transmitir emoção genuína mesmo falando um idioma inteiramente fictício.

O encontro com Ruthye, garota interpretada por Eve Ridley que busca vingança contra o violento Krem das Colinas Amarelas, papel de Matthias Schoenaerts, funciona como o motor emocional de toda a jornada. Schoenaerts entrega um antagonista de presença física imponente, mas que aparece em cena com parcimônia, quase como uma sombra constante que move as decisões de Ruthye sem nunca dominar o tempo de tela. Essa escassez de aparições faz o medo da garota parecer mais real, ainda que deixe a audiência com vontade de entender melhor as motivações de Krem antes do confronto final.
É justamente nesse espaço mais contido que Alcock floresce ainda mais. A atriz constrói uma Kara que recusa qualquer tentativa de polimento. Ela é ríspida quando deveria ser gentil, distante quando deveria se aproximar, e essa autenticidade desconfortável é exatamente o que torna a personagem fascinante. Quem já acompanhou seu trabalho em A Casa do Dragão sabe da capacidade de Alcock de comunicar tempestades internas através de pequenos gestos faciais, e aqui essa habilidade encontra talvez seu melhor uso até hoje, carregando cenas que o restante da produção não consegue elevar na mesma medida.

A chegada do Lobo, interpretado por Jason Momoa, injeta uma dose de imprevisibilidade bem-vinda na trama, sendo provavelmente o elemento mais vivo de todo o elenco de apoio. Personagem criado especialmente para esta adaptação, ele representa um espelho perturbador para Ruthye: alguém que também escolheu a violência como resposta para a dor, mas que perdeu, há muito tempo, qualquer remorso sobre isso. As cenas entre os dois carregam uma tensão genuína que o restante do filme, mais comportado, raramente alcança.
Visualmente, Supergirl é um dos pontos mais frágeis da produção. A fotografia amarronzada e sem muita identidade própria pouco contribui para a força emocional que o roteiro tenta construir, resultando em um filme que parece ter medo de arriscar esteticamente, e essa cautela cobra seu preço ao longo da experiência.
O roteiro de Ana Nogueira, em contrapartida, merece reconhecimento especial por resistir à tentação de resolver tudo com um grande confronto final espetacular. As perguntas morais que o filme levanta sobre vingança, justiça e os limites éticos de cada escolha não recebem respostas fáceis, mas é justamente nesse terreno mais denso que se sente falta de mais ousadia visual e ritmo mais afiado para acompanhar a ambição do texto.

O terceiro ato reserva a decisão mais arriscada de toda a narrativa, um momento que exige da audiência reflexão genuína sobre o que realmente significa fazer a coisa certa quando a justiça parece insuficiente. É um dos poucos trechos em que o filme realmente arrisca, e funciona, mas chega tarde demais para compensar o excesso de cautela que domina boa parte da experiência anterior.
Há um cuidado real em explorar texturas menos limpas do universo DC, com criaturas e ambientes que fogem do brilho usual associado aos heróis kryptonianos. Esses momentos sugerem o filme mais interessante que Supergirl poderia ter sido, caso a ambição do roteiro tivesse sido acompanhada com a mesma intensidade em outros aspectos da produção.
Conclusão
Supergirl não é um desastre nem uma decepção completa, mas também não é a revolução que o material original sugeria ser possível. O que sobra, com força inegável, é a certeza de que Milly Alcock encontrou na Kara Zor-El um papel à altura de seu talento, mesmo quando o filme ao redor dela hesita em acompanhar esse mesmo nível de ambição.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Craig Gillespie;
Roteiro: Ana Nogueira;
Elenco: Milly Alcock, Matthias Schoenaerts, Eve Ridley, David Corenswet, David Krumholtz, Emily Beecham, Jason Momoa;
Gênero: Ação;
Duração: 107 minutos;
Distribuição: Warner Bros. Pictures;
Classificação indicativa: 14 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z