O Espaço Oscar Niemeyer recebe a exposição “Verdade Moldada”, da artista nipo-brasileira Akimi Watanabe. A mostra parte de um episódio histórico extremo, prática dos “pés de lótus”, que mutilava mulheres na China imperial em nome de um ideal de beleza, para provocar uma reflexão urgente sobre os padrões que ainda moldam corpos e comportamentos femininos.
Radicada em Brasília e filha de pioneiros japoneses na capital, Akimi desenvolveu a exposição ao longo de quatro anos de pesquisa. O resultado é uma produção extensa, que reúne mais de 100 desenhos em nanquim sobre algodão, 60 desenhos sobre papel, colagens digitais, instalações, objetos e esculturas.

A artista explica que o interesse pelo tema surgiu como um desdobramento de trabalhos anteriores, ampliando a discussão sobre opressão e apagamento feminino. “Minha pesquisa fala sobre apagamentos e opressão feminina. Eu me aprofundei na história dos pés de lótus não para fazer revisionismo histórico, mas para reforçar que nada mudou, só mudaram as formas de opressão”, afirma.
Ao revisitar esse contexto histórico, a exposição evidencia como, na China imperial, valores culturais e sociais associados à elegância e status submetiam meninas a dores extremas e a uma vida limitada. Mais do que um recorte do passado, a proposta é estabelecer paralelos com o presente.

“Os padrões de beleza atuais falam sobre magreza, sobre produtos que são tóxicos. É um questionamento: até que ponto a sua subjetividade vai? O corpo natural está sendo mudado por questões sociais externas. Será que a beleza também não é um discurso para nos mutilar?”, questiona a artista.
Durante o processo criativo, uma descoberta marcou profundamente Akimi: “Uma das doutrinadoras das ‘quatro virtudes’ era uma mulher julgando outras mulheres. Uma mulher ensinando outras a se oprimirem”. Para ela, isso reforça como os mecanismos de controle sobre o corpo feminino podem ser reproduzidos dentro da própria sociedade.
Com curadoria de Rogério Carvalho, a exposição propõe um percurso que convida o público a identificar como antigas violências simbólicas continuam presentes sob novas formas. Redes sociais, padrões estéticos e discursos normativos aparecem como possíveis equivalentes contemporâneos dos “pés de lótus”.
Segundo o curador, o trabalho já traz em si uma narrativa potente. “A pesquisa da artista se transforma na narrativa que o público vê. O processo de curadoria é de acompanhamento e direcionamento”, explica.

Para ele, a atualidade da exposição está justamente na permanência dessas imposições ao longo do tempo. “Há mil anos, essa prática impunha limitações às mulheres. Hoje, esses mesmos impedimentos continuam surgindo de diversas maneiras. Por isso, é uma discussão absolutamente contemporânea”, afirma.
Ao tensionar passado e presente, “Verdade Moldada” aponta para uma reflexão mais ampla sobre autonomia e controle. A exposição também dialoga com a ideia de que, mesmo em contextos de aparente liberdade, ainda existem estruturas sutis que influenciam escolhas e comportamentos..
Mais do que apresentar respostas, a exposição se constrói como um convite à reflexão. “Quero que as pessoas saiam daqui pensando sobre os discursos que recebem. Se saírem refletindo sobre como estão sendo submetidas a certos padrões, a exposição já valeu a pena”, conclui Akimi.
SERVIÇO
Exposição: Verdade Moldada
Artista: Akimi Watanabe
Local: Espaço Oscar Niemeyer
Data: de 9 de abril a 12 de maio
Horário: De terça a sexta — das 9h às 18h/ Sábado domingo — das 9h às 17h