Menu
Viva

Espetáculo brasiliense no Festival de Curitiba

Arquivo Geral

03/04/2011 20h00

Camilla Sanches
camilla.sanches@jornaldebrasilia.com.br

 

Monólogo A Cela. Foto: DivulgaçãoA desumanização com que são tratados os detentos dos sistemas prisionais. Esta é apenas uma das discussões a que o espetáculo brasiliense A Cela se propõe. O monólogo está em cartaz desde o último sábado, no Teatro Novelas Curitibanas, em Curitiba, como parte da programação do Fringe, uma mostra paralela à Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba, que começou em 29 de março e segue até o dia 10 de abril.

Com texto de Michel Azana e tradução de Edson Rodrigues, a peça foi dirigida pelo francês Jean Jacques Mutin e traz no elenco a atriz Tereza Padilha, que, criteriosa e fascinantemente, interpreta uma detenta presenteada com uma liberdade condicional antecipada.

A montagem se passa toda durante a última noite da, agora, libertada na cadeia. “O texto fala da desumanização das prisioneiras, de como elas, depois de trancafiadas em locais onde deveriam se recuperar, são tratadas como animais indignos”, descreve a atriz.

A saudades dos filhos, a culpa pelo assassinato do marido, a relação com as presas, o sofrimento com a morte de algumas delas, o tratamento recebido pelas carcereiras também são momentos tratados de forma cuidadosa e emocionante.

“É um texto cruel. Elas se tornam pessoas duras lá dentro. Falta preparo das funcionárias, porque o sistema prisional  não enxerga o ser humano por trás da presidiária”, observa.

A Cela. Foto: DivulgaçãoTereza se preparou durante quase um ano para o papel. Seis meses deles foram dedicados aos ensaios e a decorar as falas. “Me preparo para este papel, na verdade, há 20 anos, e só ano passado pude convidar o Jean Jacques para a direção e montar o espetáculo de fato, depois que fomos contemplados com o Prêmio Funarte Myriam Muniz de fomento ao teatro”, conta.

Como preparação, a atriz faz um trabalho de corpo, entre corrida e exercícios vocais, por oito horas diariamente, quatro pela manhã e quatro à tarde. “A atuação exige muito de mim. Não posso gesticular. Tenho que sentir cada palavra e segurar o sentimento, porque o ator tem que emocionar o público e não se emocionar”, destaca a atriz, que faz parte da Cia. Teatral Mapati, de Brasília.

“É um trabalho de total concentração. Temos que trabalhar bastante a respiração, técnicas de pausa”, completa o tradutor e assistente de direção Edson Rodrigues.

Segundo Tereza Padilha, “preciso estar concentrada para visualizar a cena que estou interpretando, porque não tem espaço para mais nada além do texto. Vírgulas e pontos tem seu espaço muito definido e ressuscitar a palavra que dizemos é fundamental para passar verdade no espetáculo”.

Para compor a personagem, a atriz esteve na Papupa e na Colméia, presídio feminino que fica no Gama – DF. De acordo com ela, a brutalidade nas penitenciárias começa já na vistoria, tanto para os internos quanto para os visitantes. Em cena, Tereza protagonizou um nudismo completo para retratar o momento da entrada da presidiária no cárcere. “Ali, ela perde todo o seu individualismo”.

Tereza ressalta, ainda, que além da crueldade, a peça quer destacar a importância do Estado na mudança de postura quanto ao tratamento oferecido às detentas do Sistema Prisional Brasileiro. “É preciso entender que aqueles são lugares para recuperação de pessoas, para que saindo dali elas se tornem seres humanos sociáveis e não bichos, como são tratadas”.

 

A repórter viajou a convite da organização do Festival de Teatro de Curitiba

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado