O primeiro longa-metragem de ficção de Eryk Rocha é a atração principal da segunda noite da mostra competitiva do 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Diretor do aclamado documentário Rocha que Voa (2002) – feito a partir de entrevistas de seu pai, Glauber Rocha, na época do exílio em Cuba –, Eryk utilizou a experiência agregada em seus documentários anteriores para contar a história do aposentado Expedito em Transeunte. “Este é o meu quarto longa-metragem. Me formei muito com outros três filmes que fiz”, acredita o diretor.
Aos 65 anos, Expedito é um homem solitário que perdeu contato com a própria vida. Ele caminha anonimamente pelas ruas do centro do Rio de Janeiro em meio aos demais transeuntes, até que, aos poucos, começa a despertar novamente para o mundo. O diretor explica que o filme mostra um momento de transição na vida de Expedito, entre a solidão e a libertação. “Transeunte também aparece como estado transitório da alma”, afirma.
No documentário Intervalo Clandestino (2006), Rocha leva sua câmera para as ruas do Rio de Janeiro registrando as impressões da população sobre as expectativas em relação ao futuro do País, após a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Da mesma forma, em Pachamama (2009) busca personagens perdidos no anonimato em uma viagem a partir da floresta amazônica em direção a Peru e Bolívia, revelando a realidade dos povos vizinhos. “O anonimato na grande cidade já é um tema presente em meus outros filmes, talvez sob uma perspectiva mais épica – Transeunte é focado em um indivíduo”, analisa Rocha.
Assim como outros longas-metragens concorrentes ao Troféu Candango, a dramaturgia de Transeunte é fortemente influenciada pelo real. “Trabalhamos os diálogos a partir da imersão na realidade. O filme é o entrelaçamento entre documentário e ficção. Usamos praças do Rio de Janeiro para filmar, não fechamos nenhuma rua. A cidade aparece incorporada ao filme como elemento dramático”, detalha.
Nascido em Brasília, mas radicado no Rio de Janeiro, Eryk Rocha acredita que o Festival de Cinema de Brasília é a melhor vitrine para sua estreia como diretor de ficção. “Sempre pensei que Brasília seria a melhor tela para o filme. Tanto por minha relação afetiva e espiritual com a cidade, como pela força do festival como espaço de debate”.
Curtas
Fã de quadrinhos, a carioca Beth Formaggini homenageia um dos mais influentes artistas gráficos de sua geração no curta Angeli 24 Horas, que também compete hoje, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme traduz a obsessão do quadrinista por seu trabalho, acompanhando um dia no processo de criação de Angeli. O curta evidencia o dilema do artista que faz parte da cultura pop e, ao mesmo tempo, procura manter-se inovador e corrosivo. “O que me interessa é essa radicalidade de Angeli. Ele é muito inquieto e criou personagens que vieram para incomodar”, acredita Beth.
Para complementar, a equipe de filmagem saiu às ruas de São Paulo em busca de personagens que espelham os tipos retratados por Angeli, assim como os ambientes que aparecem nas tirinhas. “Tentamos recriar o objeto de trabalho dele – essa loucura e solidão do morador da metrópole”.
Contagem, de Gabriel e Maurilio Martins é o outro curta da noite. Rodado na cidade mineira, o filme conta a história de quatro pessoas envolvidas por um acontecimento em comum.