Há filmes que se sustentam pela arquitetura e há os que se sustentam pela atmosfera. Vidas Entrelaçadas, da diretora francesa Alice Winocour, estreia nesta quinta-feira (16) e insiste em ser os dois ao mesmo tempo, e essa ambição dupla é tanto sua maior qualidade quanto a razão pela qual ele tropeça nos próprios pés com alguma regularidade. O longa acompanha três mulheres que se cruzam nos bastidores de um desfile de moda em Paris: Maxine, uma modelo recém-descoberta; Angèle, costureira do evento; e a diretora de cinema Ada, responsável pelo visagismo do projeto. Elas são distintas em quase tudo, exceto naquilo que realmente importa para Winocour: sabem exatamente qual é o seu lugar no mundo, e esse conhecimento pesa.
O mundo da moda como cenário não é uma escolha inocente. Poucos universos profissionais são tão abertamente organizados em torno do corpo feminino como mercadoria, e Winocour usa esse contexto para escavar algo bem mais fundo do que o glamour superficial sugere. As três protagonistas não estão ali para celebrar o desfile; estão ali para trabalhar, sobreviver e, em algum momento, tentar existir além das funções que lhes foram atribuídas. O filme entende que ser mulher nesse espaço é uma negociação constante entre o que se mostra e o que se guarda.

Maternidade, solidão, não-pertencimento e o custo emocional do trabalho informal permeiam cada cena sem que o roteiro precise anunciá-los. Essa contenção é admirável e, ao mesmo tempo, exige um grau de confiança na audiência que o cinema contemporâneo raramente permite. Por mais de uma vez, a câmera simplesmente observa as três mulheres suspensas em seus próprios pensamentos, sem julgamento, sem contemplação fácil. É uma investigação de gênero que não se propõe a entregar respostas, apenas a abrir perguntas no espaço entre os planos.
Quando Ada, a personagem vivida por Angelina Jolie, faz uma descoberta devastadora sobre si mesma em determinado ponto do filme, a composição verbal do roteiro finalmente se destaca. É um momento que poderia resvalar no melodrama e não resvala, justamente porque Winocour já treinou o espectador para esperar o não-dito. A atriz vencedora do Oscar por Garota, Interrompida encontra aqui uma personagem que opera nos registros que ela conhece bem: força contida, fascínio difícil de nomear e uma credibilidade de presença que poucos atores possuem. Jolie não precisa forçar nada; basta existir diante da câmera para que tudo ao redor orbite em torno dela.

Isso, porém, é um problema quando o filme se propõe a ser coral. A distribuição narrativa entre as três histórias nunca é equânime, e o desequilíbrio acaba traindo o próprio ritmo que Winocour construiu com cuidado. A personagem da jovem costureira, a mais sacrificada das três em termos de desenvolvimento, mal recebe dados suficientes para que sua presença ganhe peso dramático. Não é que ela seja esquecida; é que o roteiro parece deliberadamente pouco interessado em dotá-la de relevância equivalente, e essa assimetria cobra seu preço na coesão do conjunto.
As fraturas no tecido narrativo aparecem com mais clareza justamente quando o filme tenta compensar a ausência de profundidade nas histórias secundárias com maior ênfase no arco de Ada. O resultado é que os espaços narrativos, em vez de se alimentarem mutuamente como ocorre nos melhores filmes de episódios, funcionam em paralelo quase sem fricção entre si. O espectador sente falta de uma colisão real, de um momento em que as três existências se perturbem de forma genuína. O entrelaçamento do título permanece mais promessa do que realidade.

Ainda assim, Vidas Entrelaçadas sabe exatamente o que quer dizer quando olha para Ada. Winocour constrói em torno dela uma reflexão sobre o que significa perder o que se conquistou, sobre o véu fino que separa o status do esquecimento, sobre as batalhas invisíveis que mulheres travam todos os dias por postos que o mundo nunca reconhece com facilidade. O filme emociona não apesar dessas fraturas, mas junto com elas, como se a imperfeição estrutural fosse, ela própria, uma metáfora para a precariedade dos lugares que as mulheres ocupam.
Conclusão
O cinema de Alice Winocour é o de quem respeita o espectador o suficiente para não explicar demais. Vidas Entrelaçadas não é um filme redondo, mas é um filme honesto e, nos melhores momentos, genuinamente emocionante. Tem o mérito raro de tratar seus temas sem transformá-los em pauta, e de encontrar na presença descomunal de Angelina Jolie não um atalho fácil, mas uma síntese do que quer defender: que o ato de ser feminino, com toda a sua persistência e todas as suas perdas, é em si uma força que a tela mal consegue conter.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: Alice Winocour;
Roteiro: Alice Winocour;
Elenco: Angelina Jolie, Ella Rumpf, Anyier Anei, Louis Garrel, Vincent Lindon;
Gênero: Drama;
Duração: 106 minutos;
Distribuição: Synapse;
Classificação indicativa: 14 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Atômica Lab