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Editora italiana que se negou a publicar Saramago expressa sua dor

Arquivo Geral

18/06/2010 15h05

O mundo editorial italiano, que acolheu de forma desigual os artigos de “O caderno”, de José Saramago, reagiu hoje com dor, de maneira unânime, ao receber a notícia da morte do prêmio Nobel português aos 87 anos.

Ernesto Franco, diretor editorial da Einaudi, casa que se negou a publicar a compilação dos artigos que o escritor publicava diariamente em seu blog, disse, em declarações à Agência Efe, sentir “uma grandíssima dor, após tantos anos de fantasias compartilhadas”.

“Através de suas invenções inventadas José nos contava a alma contemporânea e o conseguiu do nada, como quando Deus criou o mundo, entrar nos tormentos, na dor e no coração das pessoas”, ressaltou.

O editor lembrou as conversas demoradas com o escritor e sua mulher, Pilar del Río, nas ruas de Lisboa, “pelas quais caminhava de um modo especial e olhava de um modo muito singular”.

Após ter publicado todos os títulos do Nobel, a decisão de não publicar “O caderno” supôs uma ruptura entre Einaudi e Saramago, “um episódio muito doloroso”, na opinião do editor.

“Foi muito doloroso para todos, para ele, para a Einaudi e para mim”, disse Franco.

A editora justificou sua decisão “entre outras coisas”, porque no livro se dizia “que (o primeiro-ministro da Itália, Silvio) Berlusconi (proprietário da Einaudi) é um delinquente” e explicou que rejeitava “adotar como própria uma acusação que qualquer julgamento condenaria”.

Mas a aquele capítulo se antepõem hoje, na opinião de Franco, as obras do escritor e as “inconfundíveis páginas que desenhava” ao utilizar as maiúsculas só depois dos pontos.

Atualmente, os direitos de publicação das obras do português pertencem ao grupo Feltrinelli, que deve reeditar todos os seus livros no próximo inverno (boreal), incluindo “O caderno”.

Inge Feltrinelli, a proprietária deste império editorial, expressou sua “tristeza” e definiu o escritor como “um dos últimos homens da literatura mundial de esquerda, um homem intransigente que, inclusive depois de receber o Nobel, jamais se rendeu a nenhum compromisso político nem cultural”.

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