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Cinema com ela
Cinema com ela

Digger, com Tom Cruise, aposta alto em uma sátira climática tão deslumbrante quanto irregular

Longa sobre um magnata do petróleo que provoca um desastre no Ártico chega aos cinemas nesta quinta-feira (01), reunindo elenco de peso e visual grandioso

Tamires Rodrigues

01/10/2026 5h00

Atualizada 30/09/2026 22h41

tom cruise digger

Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Alejandro González Iñárritu e Tom Cruise pareciam destinados a se encontrar um dia no set. O diretor mexicano construiu a carreira em cima de projetos arriscados, que misturam espetáculo e angústia existencial, enquanto o ator se tornou símbolo de um cinema que ainda aposta no impossível. Digger é o resultado dessa união, um filme enorme em tudo, na ambição, no orçamento e no tamanho das ideias. Nem todas chegam inteiras ao outro lado, mas é difícil sair da sessão indiferente.

A história gira em torno de Digger Rockwell, um bilionário do petróleo que vive trancado num universo feito à sua medida. Quando uma rachadura aberta por sua empresa no gelo do Ártico provoca uma explosão de metano, um pedaço colossal da Groenlândia se solta e começa a navegar em direção à Europa. O que se segue é uma corrida desesperada de autoridades e bajuladores reunidos na mansão do magnata, discutindo soluções absurdas enquanto tentam proteger a própria imagem. A premissa é afiada e conversa diretamente com o nosso tempo.

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Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Tom Cruise é o grande motivo para ver o filme. Transformado pelas próteses de Kazu Hiro, com papada, barriga saliente e gestos de quem nunca ouviu um não, ele mergulha no ridículo sem qualquer vaidade. É raro ver o astro se permitir ser tão grotesco, e há um prazer evidente em acompanhar essa entrega. Em alguns momentos a maquiagem pesa mais do que deveria, mas Cruise sustenta o personagem com uma energia contagiante.

O elenco de apoio oscila. John Goodman se diverte como um presidente americano doente e espalhafatoso, embora o exagero às vezes canse. Riz Ahmed faz bem o papel do cientista que parece ser o único a entender a gravidade da situação, e Sandra Hüller consegue brilhar mesmo com pouco espaço como a meia irmã de Digger. Michael Stuhlbarg, por outro lado, é praticamente desperdiçado. Quem rouba a cena, curiosamente, é Maggie, a gata velhinha e caolha que o protagonista insiste em manter viva, uma metáfora tão simples quanto eficiente sobre um homem incapaz de aceitar perdas.

digger
Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Na parte técnica, Digger é impecável. Emmanuel Lubezki filma em VistaVision imagens de encher os olhos, com composições que parecem pinturas vivas, e o design de produção de Dennis Gassner faz da mansão de Rockwell um personagem por si só, cheia de espelhos, excessos e janelas que não mostram o mundo real. A trilha de Cosmo Sheldrake reforça o clima excêntrico. Cada centavo do orçamento está na tela.

O roteiro, escrito por Iñárritu com Sabina Berman, Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone, é onde o filme mais se divide. As mudanças de rumo surpreendem e mostram coragem, levando a história de uma sátira política para uma reflexão sobre as narrativas que criamos para não encarar a realidade. O problema é que o humor nem sempre acerta o tom. Algumas piadas soam óbvias demais, certas cenas se arrastam e a comédia física, com gente tropeçando e gritando, funciona menos do que o diretor imagina.

Quando abandona a gag fácil e abraça o delírio, porém, Digger cresce muito. A metade central ganha ares de pesadelo, com cenários pálidos e personagens que parecem assombrações, e o ápice chega num monólogo de cerca de dez minutos em que Cruise caminha entre uma multidão de condenados e expõe a contradição entre o desprezo que sentimos pelos muito ricos e a dependência que temos do conforto que eles vendem. É uma cena poderosa, quase teatral, e também um comentário irônico sobre a própria trajetória do astro.

Conclusão

No saldo final, Digger é um filme desigual, mas que merece ser visto na maior tela possível. Tem momentos de puro brilho, uma atuação de Cruise que vai render conversa e uma beleza visual rara, ao lado de um humor que nem sempre encontra o ritmo certo. Iñárritu tropeça aqui e ali, mas tropeça tentando algo grande, e isso, num cinema cada vez mais cauteloso, já vale o ingresso.

Confira o trailer:

Ficha Técnica
Direção: Alejandro González Iñárritu;
Roteiro: Alejandro G. Iñárritu, Sabina Berman, Alexander Dinelaris Jr. e Nicolás Giacobone;
Elenco: Tom Cruise, Sandra Hüller, Riz Ahmed, John Goodman, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons, Sophie Wilde, Emma D’Arcy;
Gênero: Comédia dramática, Sátira política, Humor ácido;
Duração: 129 minutos;
Distribuição: Warner Bros. Pictures;
Classificação indicativa: 14 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z

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